10 março, 2015

CLÁUSULAS

Toni Frisell

Gosto mais de Beethoven do que de Mozart. Mas há coisas de Mozart de que gosto mais do que de algumas de Beethoven.
De Beethoven, gosto mais das sinfonias do que dos quartetos. Mas gosto mais de alguns quartetos do que de algumas sinfonias.
Gosto mais da 7ª sinfonia do que da 8ª sinfonia. Mas gosto mais do primeiro andamento da 8ª do que do terceiro andamento da 7ª.
Gosto mais de doces do que de salgados. Mas gosto mais de um rissol de camarão do que de um brigadeiro.

Nós pensamos através de categorias enquanto gavetas mentais que ajudam a arrumar as nossas ideias. É normal. Preferimos a ordem à desordem, a arrumação à desarrumação. Mas a pressão para pensar e transmitir rapidamente o que pensamos, acaba por dar origem a erros, ilusões, distorções. Não minto ao dizer que gosto mais de Beethoven do que de Mozart. Na minha cabeça é verdade. Mas não deixa de ser um equívoco. A outra pessoa pensa em Beethoven como um todo e em Mozart como um todo, e na sua gaveta mental é assim que a mensagem fica arrumada.

Só haveria uma maneira de evitar este tipo de erros e ilusões. Pensar por cláusulas, através de ziguezagues adversativos, de uma lógica da excepção, de um discurso atomizado. Só que isso levar-nos-ia a estilhaçar os pensamentos e os discursos, tornando a comunicação labiríntica e impraticável. Daí que, no dia-a-dia, em conversas inócuas nas quais a verdade e a falsidade não têm consequências negativas, não haja qualquer problema nisso, ficando-nos por meias-verdades ou meias-falsidades.

O problema é quando acreditamos verdadeiramente nessas categorias ou gavetas num plano ideológico, político, económico, filosófico ou religioso, levando ao dogmatismo, a um perspectivismo puramente estratégico e utilitário ou, em casos extremos, ao fanatismo. Quando assim é, todo o cuidado é pouco.