21 março, 2015

AS MAÇÃS

Stanko Abazic | Todas as Minhas Maçãs, 2000
        
"Longe de mim dizer que me preocupa a tua riqueza; pelo contrário, encanta-me, assim como tudo o que é teu, quer seja o dinheiro quer seja a virtude. O dinheiro é horrível se o procuramos, mas delicioso quando vem ao nosso encontro. Parece-me, todavia, que já demonstrei suficientemente até que limites o ambiciono: jamais na minha vida me esforcei por ganhar uma moeda de cobre, e devia, portanto, merecer menos desconfiança do que essas criaturas que vemos lutar com tanta voracidade" Henry James, Retrato de uma Senhora, capítulo XXXV
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Quem diz isto é Osmond, à sua noiva Isabel Archer. Isabel, que depois de receber uma enorme herança do tio, depois de rejeitar propostas de casamento de um Lord inglês com uma fortuna incalculável, e de um americano rico, se apaixona por Osmond e resolve casar com ele. Um homem cuja modesta posição leva a família dela a não esconder a sua relutância e desilusão face ao casamento.

O que ele diz (cinjo-me apenas ao que ele diz, não à personagem) em relação ao dinheiro, é próprio de um epicurista ou estóico cujo comportamento é marcado pela ataraxia. Será bom viver num palazzo em Florença, com salões cheio de belas obras de arte, com um sumptuoso jardim? Claro que é. Poder fazer um grand tour apenas para indolentemente contrariar o tédio? Claro que é. Poder oferecer uma valiosa jóia à mulher amada só pelo prazer de um sorriso efémero? Naturalmente. O dinheiro é, na verdade, delicioso. Mas não tem de ser mau não viver num palazzo em Florença, não poder fazer um grand tour ou não oferecer uma jóia valiosa.

Mau é não ter o que é mau não ter. Não ter o que não é mau não ter, não é necessariamente mau, o que inclui uma enorme quantidade de coisas boas que a maioria das pessoas nunca teve ou terá, eu incluído. Se fosse mau, a vida seria insuportável uma vez que são infinitas as coisas boas que toda a gente nunca terá, mesmo as mais ricas. Quem luta pelo dinheiro com tanta voracidade é quem está sempre na posição de achar a vida insuportável por achar que nunca tem o suficiente para a considerar boa. 

Claro que não estou a pensar naqueles que fazem contas à vida, eu incluído, para terem o que é mau não ter, o que inclui muitas coisas boas. Estou a pensar naquelas de quem Séneca (Cartas a Lucílio) dizia que não são pobres por terem pouco mas porque desejam mais. Assim como pipas furadas cujo interior nunca chega a repousar.