01 março, 2015

ARISTOCRACIAS


Vincent Mentzel | Audrey Hepburn, 1988

- Na América, tentam convencer-nos de que [a respeito dos ingleses] os pares são todos belos e deslumbrantes e que usam mantos maravilhosos e coroas na cabeça.
- Os mantos e as coroas não são de uso diário, assim como os tomahawks e os revólveres na sua terra.
- É pena. Entendo que a aristocracia se deve dar ares de magnificiência - declarou Henrietta. - Se não for assim, que utilidade tem? Henry James, Retrato de uma Senhora, cap. XIV 


Isto é que é útil: estar em situação de superioridade para poder apreciar todos os outros. E concluía que, reflectindo bem no caso, não era outra coisa a essência da aristocracia. Por este critério, e não outro, é que se devia considerar a vantagem de uma classe aristocrática. id, cap. XIX

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Eis, no mesmo livro, dois sentidos diferentes de aristocracia. O primeiro, mais de acordo com o senso comum: a afirmação de si pela ostentação de elementos materiais e simbólicos aos quais só alguns têm acesso, não por via do dinheiro mas do sangue. Claro que o dinheiro é preciso mas como condição necessária, longe de ser condição suficiente.

Porquê a necessidade de ostentação, não bastando o usufruto discreto e privado dos bens? Por que razão não basta o prazer de ter ou de ser, sendo também preciso exibir o que se tem ou o que se é? Porque o prazer de ter ou de ser não é absoluto mas relativo, uma vez que o valor do que se tem ou do que se é, está condicionado pela comparação com o que outros têm e são. Se uma pessoa, numa ilha deserta, tiver tudo o que a riqueza permite ter, esta será tão inútil como uma ventoinha no Pólo Norte.

Por um lado, porque o valor da riqueza depende do valor da riqueza dos outros. Num livro chamado Violência, o conhecido humorista-filósofo Slavoj Zizek lembra uma história popular eslovena que é mais ou menos assim: uma bruxa diz a um homem que lhe dará o que ele pedir mas na condição de dar aos outros o dobro do que dará a ele. O homem pede então à bruxa para lhe furar um olho.
Se fôssemos todos igualmente ricos, deixaria de haver ricos. Se toda a gente tivesse um carro de luxo, passaria a ser apenas um carro. Se toda a gente vivesse em casas de luxo, deixariam de ser de luxo. Fosse assim, e acabar-se-ia o prazer de andar num carro de luxo ou de viver numa casa de luxo, uma vez que se trata de um prazer induzido psicologicamente pelo facto de a maior parte das pessoas não andar em carros de luxo ou viver em casas de luxo. Basta comparar o impacto social dos primeiros telemóveis com o nulo impacto de actualmente ter um ou até dois telemóveis, ainda que caros.

Por outro lado, porque a riqueza precisa do seu público e nada melhor para atear a fogueira da vaidade, uma das grandes paixões da alma, do que uma outra grande paixão da alma, a inveja.

Explica-se assim a frase final do primeiro excerto. Que continua actual, com a grande diferença de a verdadeira aristocracia do passado ter sido substituída por uma classe média com o mesmo ímpeto ostentatório da velha classe, demarcando-se da classe média baixa através de sinais exteriores que tanto alimentam a vaidade própria como a inveja alheia.

Já o sentido apresentado no segundo excerto, sem anular o anterior, é muito diferente. Assume-se a existência de uma classe superior. Porém, ao contrário de uma aristocracia que reduz os outros à condição de espelhos para se poderem enaltecer e inebriar com a sua própria pureza, existe também a possibilidade de partir dessa pureza (nos valores, na educação, na cultura, no bom gosto) para poder avaliar os outros, tal como um professor se encontra numa posição superior face ao aluno, graças à qual o pode apreciar, avaliar e, por isso, servir-lhe também de modelo e referência.

O aristocrata, neste sentido, pode ser rico mas não vive para ostentar a sua riqueza. Claro que não a pode esconder, ela existe e dificilmente é ocultada. Mas ser rico está longe de implicar querer sê-lo para o exibir. Ser aristocrata, nesta acepção, ao contrário do sentido anterior, revela-se socialmente estimulante, sendo benéfico para a sociedade a existência de uma classe que funcione como sua reserva moral, cultural, estética e até civilizacional, contrapondo o seu natural conservadorismo às ideias que vão surgindo como combustível que alimenta o fluxo histórico com os seus paus de dois bicos.