30 março, 2015

A MOLDURA

James Whistler | Arranjo em Cinza e Preto nº1, 1871

Existem prosaicas versões sobre a história deste retrato que Whistler fez da sua mãe, que o próprio Whistler não considerava ser um retrato mas apenas uma formal composição cromática, desvalorizando assim a identidade empírica da figura humana nela presente. Se é o próprio pintor quem o diz, quem sou eu para o negar? Seja como for, a partir do momento em que uma obra sai das mãos do criador ela passa a fazer parte de todos aqueles que dela se apropriam livremente.

Daí que, tantos anos depois de o ter visto pela primeira vez, não deixe de continuar a ver este quadro como então o vi: uma despedida A despedida de uma mãe que, ainda viva, se prepara para partir. Não digo isto pelo seu ar ausente mas pela parede cinzenta que deixa de servir apenas como um fundo da figura humana para se tornar num simbólico ponto de fuga que a leva para fora do nosso mundo. Como? Transformando-se numa moldura que leva a velha mulher de ar ausente rumo a uma realidade que já não é a nossa. Neste sentido, há uma dupla espacialidade que remete para uma dupla existência. Por um lado, a cadeira, real, onde está sentada, mostra que ainda está presa à vida. Mas, depois, a moldura que enquadra o modo como a percepcionamos, afasta-a de nós, relegando-a para uma morte à qual começa já a pertencer. Ou seja, sentada numa cadeira da sala onde vive mas, ao mesmo tempo, já imortalizada no interior de uma moldura que espera a sua presença.

Se a mãe de Whistler surgisse assim de perfil perante uma janela, um jardim, uma chávena de chá ou outra pessoa, seria sempre uma mulher viva e real olhando para uma janela, um jardim, uma chávena de chá ou outra pessoa. Neste caso, porém, não se trata de um perfil ocasional em função de um qualquer objecto empírico que prende a sua atenção. Estar de perfil é, aqui, uma condição. A condição de alguém que através de uma subtil rotação, se vai desviando, afastando, despedindo de nós. Esta velha mulher está de perfil,  não porque precise de estar de perfil mas porque, como Janus em relação ao tempo, já vive a vida de perfil, metade virada para a vida, metade virada para a morte.

Este gradual afastamento da vida é ainda subtilmente realçado pelos dois quadros que ladeiam a sua cabeça. Como se a mãe passasse a habitar um quadro entre outros quadros, um mundo virtual em vez do mundo real, no qual a cadeira se transformará na memória da cadeira onde se sentava quando viva. Não foi nada disto que Whistler quis fazer mas não deixa de ser engraçado pensar neste quadro como um exercício em que Whistler pede à sua mãe para se sentar na cadeira com o objectivo de retratar a sua presença em vida, preparando já, no entanto, o rasto dessa presença.