22 março, 2015

A GAIOLA

Ann Mansolino | Série Thresholds

- Você era a única pessoa que eu julgava incapaz de ser agarrada. 
- Não percebo porque diz agarrada.
- Porque vai ser metida na gaiola.
- Se eu gosto da gaiola, não precisa de se afligir. [...]
- Você deve ter mudado muito. Há perto de um ano punha a sua liberdade acima de tudo. O seu desejo era conhecer a vida.
- E conheci-a - ripostou Isabel. - A verdade, digo-lhe agora, é que não me seduziu por aí além.
- Não a contrario nesse ponto. Mas pensava que observaria o mundo de forma desprendida, limitando-se a dar uma vista de olhos ao conjunto...
- Cheguei à conclusão que não se podem ambicionar essas perspectivas panorâmicas. Mais vale escolher um cantinho, e ficarmos aí.
Henry James, Retrato de uma Senhora, capítulo XXXIV
_______________________________________________

Durante muito tempo acreditei que o problema da liberdade política seria um genuíno e sentido problema da humanidade. Problema filosófico por excelência, é também vedeta na literatura, e se há conceito usado e abusado na retórica política, à esquerda ou à direita, é o de liberdade, em nome da qual se morreu e matou.

Hoje não penso da mesma maneira. Creio cada vez mais que o problema da liberdade política é um problema de pessoas, sobretudo na cultura ocidental, cuja inteligência, cultura, erudição, pensamento crítico, necessidade de afirmação individual ou até narcísica, desejo de poder, as leva a naturalmente valorizá-la, lutando por ela, seja pela palavra ou pela acção política, incluindo a revolucionária que, muitas vezes acaba depois por anular a própria liberdade pela qual lutou. Eu sei que é chato dizer isto mas, em Portugal, antes do 25 de Abril, a falta de liberdade não tirava um minuto de sono à esmagadora maioria das pessoas nem ninguém estava disposto a beliscar um dedo a lutar por ela, quanto mais morrer, ser preso ou exilado. O problema da liberdade era um problema de gente urbana, cosmopolita, com alguma cultura literária, que queria para o seu país a mesma liberdade dos outros países europeus, cuja liberdade foi também ansiada por elites sociais e intelectuais. No 25 de Abril o povo veio logo para a rua festejar mas também é verdade que qualquer coisa serve para o povo festejar pois as oportunidades não são muitas para o fazer e, neste caso, os seus sonhos eram outros.

Claro que o povo foi e vai muitas vezes atrás desta retórica. Acontece que o povo vai atrás da primeira coisa que lhe soa bem ao ouvido e que embora não seja problema seu, acaba por associar aos que mexem consigo, nomeadamente, a comida no prato. Excluo naturalmente situações extremas como a escravatura ou outras em que a veemência da humilhação ou opressão motiva as pessoas para a revolta. Mas o que a maior parte das pessoas deseja é conforto, pão e vinho sobre a mesa, trabalho, família e que ninguém as chateie e, se for o caso, também não chateiam ninguém. Para que quer o povo liberdade para pensar se o povo não pensa? Para que quer o povo liberdade para escrever, filmar, pintar, se o povo não escreve, filma ou pinta? Para que quer o povo liberdade para votar se o povo não chega ao poder e apenas deseja que quem lá está o trate bem quanto ao que verdadeiramente lhe interessa?

O que o povo  apenas quer é o que deseja Isabel Archer do seu casamento: uma gaiola, um cantinho onde possa ser feliz. Vistas panorâmicas são para olhos ambiciosos e, no cantinho que tanto ambiciona, acredita o povo, ao contrário de poetas e intelectuais, que mais vale um pássaro na mão do que ver muitos a voar.