20 março, 2015

A CARTA






Constata-se uma crescente dificuldade ao nível da atenção e concentração, uma incapacidade de atender ao que é social e culturalmente profundo, ficando-se pelo superficial e imediato. Dificuldades cada vez mais associadas a uma comunicação permanente, sempre on line, sem tempo de espera, sem silêncios, sempre com o som de uma sms, do messenger, onde quase se tweeta como se respira, onde há sempre uma televisão ou um computador ligado. Um estado mental onde só existe o presente como tempo absoluto. Um estado mental que não deixa ler mas apenas passar os olhos por cima. Um estado mental que não deixa pensar mas apenas passar a cabeça por fora.

Estes quatro quadros de Vermeer têm um objecto em comum: uma carta. Cartas onde, ao contrário do estado mental atrás descrito, há um silêncio. Um tempo de espera. De suspensão. Um congelamento da acção, talvez inversamente proporcional ao fervor interior das emoções. Um tempo do desejo. Um tempo de desejo que cresce no interior de um tempo de espera. Um mundo de expectativas. Uma experiência interior. A ausência de fluxos exteriores que contaminam abruptamente o interior.

Um tempo vazio entre o momento em que se escreve a carta, em que é recebida pelo destinatário, em que é respondida por este para chegar finalmente ao remetente. Mas é um tempo vazio apenas no exterior. No exterior, de facto, nada acontece, apenas as cartas viajam na ida e na volta do correio. Mas é esse vazio exterior que permite uma efervescência interior. No silêncio da alma. No bater do coração. Que hoje, claro, continua a bater e sempre baterá. Mas que já não se ouve bater pois só no tempo do silêncio, do desejo, da espera, é possível ouvir bater.