16 fevereiro, 2015

SEXO GOURMET

Tod Browning | Dracula, 1931 [fotograma]

Só posso estar mesmo a ficar velho. Ainda sou do tempo em que uma refeição era só uma refeição, por muito boa que fosse. Havia comidinhas que, pelos seus ingredientes e confecção, eram especiais ou feitas para alturas especiais. Mas apenas isso: especial.
Actualmente, não basta uma comidinha ser especial para satisfazer as necessidades gastronómicas do povo mais exigente. Ou a coisa é gourmet ou é remetida para a mais comezinha banalidade. E não é só o prato no restaurante que tem de ser gourmet com aquelas decorações minimalistas de encher o olho mas sem chegar sequer a compor o bandulho, Também no supermercado ficamos hipnotizados com o queijo flamengo gourmet, o molho gourmet, a massa gourmet, o iogurte gourmet, os hamburgers gourmet, as bolachas gourmet, as compotas gourmet, o azeite gourmet, o gelado gourmet e mais uma lista infindável de produtos aos quais não basta serem bons, muito bons ou excelentes.
Uma das coisas sobre as quais tenho reflectido nos últimos dias é sobre o sucesso das Cinquenta Sombras de Grey e, apesar de não se tratar de comida, creio que passa também por aí. Não está em jogo perceber a epidémica febre social que configura um problema de saúde pública, embora sem margem de manobra para o dr Francisco George. A Sociologia explica facilmente este tipo de fenómenos de contágio social. O meu problema é mesmo tentar perceber o que levará pessoas normais a acharem piada a parvoíces eróticas cujo efeito deveria ser o bocejo em vez de exaltarem os ânimos libidinosos das domésticas portuguesas, entre o arrumar da cozinha depois de jantar e a preparação dos farnéis para os filhos levarem no dia seguinte para a escola. 
Sim, eu sei que sou exigente. Desde o Garganta Funda, passando por aquele filme que tinha umas anãs lésbicas, mais aquele onde um corcunda fazia as alegrias de mulheres já rendidas às frustrações de uma perfunctória sexualidade, que a minha fasquia, salvo seja, ficou bastante elevada. Ainda assim, não consigo deixar de sentir estranheza perante o fenómeno. 
A novidade não está em ver o povo a pular e urrar por causa de um filme onde o sexo é protagonista. Quem não se lembra das bichas à porta dos cinemas para ver O Último Tango em Paris, A Grande Farra ou a Laranja Mecânica? Claro que as pessoas se estavam borrifando para a angústia existencial apimentada com a música do Gato Barbieri, a crítica à sociedade de consumo ou o problema da violência urbana e da marginalidade gratuita. Isso era assunto para os intelectuais depois reflectirem com mental gravidade. O povo queria era sexo. Pronto, também o que os intelectuais queriam era sexo mas lá conseguiam disfarçá-lo com as angústias existenciais, a crítica à sociedade de consumo ou o problema da violência urbana.
Esta pueril inocência de quem queria apenas sexo parece ter-se perdido. A manteiga, com os anos, ficou rançosa e as mamas da Andrea Ferréol a dar-a-dar já não merecem mais do que um bocejo. O povo refinou-se e o sexo, agora, para ter graça, precisa de acções e de um pathos que o afaste das mais primárias e proletárias libidonices. E tal como na gastronomia já não surpreende um belo arroz de pato, uma chanfana ou um ensopado de borrego, também no sexo já não chega o prazer ou a mais espontânea sensualidade e erotismo. O mais importante é o estilo, a procura de novos estímulos, uma hiper-esteticização dos ambientes. Em suma, uma espécie de sexo gourmet.
Só que, tal como nos restaurantes dos quais se sai com fome, também aqui é mais olho do que barriga. Bom proveito!