05 fevereiro, 2015

OS SONS DA ALMA

Heinrich Kühn

Não se pode olhar para a frente e para trás, para cima e para baixo, subir ou descer, ao mesmo tempo. Se pensarmos nas emoções as coisas parecem não ser muito diferentes. Alegria é alegria, tristeza é tristeza, e quem está alegre não pode estar triste e quem está triste não pode estar alegre. E o mesmo com a calma e a raiva ou com o prazer e o nojo. Claro que em poucos segundos se pode ir de uma à outra, do mesmo modo que quem sobe passa a descer. Mas estou mesmo a pensar numa completa simultaneidade, coisa difícil de imaginar, quase uma impossibilidade lógica. Essa dificuldade, porém, não traduz uma impossibilidade no caso das emoções. A dificuldade existe, sim. Muito provavelmente, num contexto empírico, quotidiano, prático, a dificuldade seja intransponível.
Mas a arte tem a capacidade de desvelar os insondáveis territórios da alma humana, dando a perceber o que não se consegue a olho nu. Ora, quando falamos de emoções, a música tem um impacto especial uma vez que, de todas as artes, é aquela que interfere mais directamente com o sistema nervoso central, permitindo uma clarificação do que se passa nos obscuros labirintos da alma onde muitas vezes se perde quem ousa percorrê-los. Um bom exemplo é a experiência simultânea de emoções contraditórias.
Claro que isso pode ocorrer a partir da leitura de um poema ou com uma pintura. Há poemas ou pinturas que sugerem isso. Mas a pintura dirige-se para o olho, que é um órgão contemplativo, um órgão virado para um objecto que lhe será sempre irredutivelmente exterior, havendo sempre uma descontinuidade entre o estímulo (objecto artístico) e a resposta (receptor). Ora, se entrarmos no campo da poesia, assistimos a uma transferência da experiência estética e emocional para um campo ainda mais interior, mental, intelectual. A pintura pressupõe um objecto no espaço, cores, formas, em suma, há uma natureza material na pintura que, embora mais reduzida do que na escultura ou na arquitectura, faz parte da sua essência. Ler poesia não é o mesmo que pensar numa lei científica ou uma teoria filosófica. Mas não deixa de ser uma experiência intelectual de natureza formal, uma vez que ocorre apenas no interior da mente humana. Um formalismo que exclui qualquer elemento sensível que a suporte, seja visual ou auditivo, ainda que os seus referentes sejam empíricos, coisas como árvores, casas ou objectos.
Já a música, pelo seu suporte sonoro cujo efeito é físico e imediato, tira da alma o que mais nenhuma arte consegue. Wilhelm Heinrich Wackenroder, uma das figuras mais representativas do romantismo alemão do século XVIII, num texto intitulado As Maravilhas da Arte Musical, diz que, perante a música, «nascem e irrompem no meu coração tantas imagens novas e belas, que o meu êxtase é desmedido». Faz sentido, mas ouvir música não induz apenas a capacidade de criar imagens novas. Permite também compreender novas emoções. Emoções que podem pré-existir à percepção musical só que de uma forma vaga, indefinida, sincrética, sendo a música a condição, tanto necessária como suficiente, para a consciência que temos delas. É o caso das emoções híbridas, emoções que aglutinam em simultâneo, e sem contradição, emoções não apenas diferentes mas opostas, como a alegria e a tristeza ou o prazer e amargura, que podem surgir numa composição como esta.
Não se trata de pensar num meio-termo emocional, situado entre os extremos, no mesmo sentido em que, num contexto psicológico ou ético, Aristóteles fala da coragem como meio-termo entre a cobardia e a temeridade, ou a generosidade como meio-termo entre o esbanjamento e a avareza. Não, refiro-me mesmo a uma diluição de emoções opostas numa única, com a mesma naturalidade com que o açúcar e o sal se dissolvem na mesma água.
A música não é apenas a arte que mais directa e imediatamente provoca tristeza e alegria. É também a arte que mais directa e imediatamente ajuda a conhecer as nossas emoções, das mais óbvias às mais inefáveis, numa parte da alma cuja complexidade é tal, que a nossa percepção dela sofre da mesma ambiguidade que tem um sabor ao mesmo tempo doce e salgado ou a simultânea percepção de luz e escuridão nos olhos.