10 fevereiro, 2015

OS FILMES DA OUTRA VIDA

Duane Michals

É estranho rever dois filme 30 anos depois, sobretudo pelo impacto que na altura tiveram em mim, considerando-os anos a fio dois dos filmes da minha vida. Desta vez, porém, uma desilusão.
Estava lá tudo, exactamente igual. O que os meus olhos viram agora é precisamente o que tinham visto. Eu é que já não sou o mesmo. A pessoa que viu agora aqueles dois filmes já não é a mesma que os viu há 30 anos. Porém, reconheço o que havia neles que fez com que nesse tempo se tornassem dois dos filmes da minha vida. Já não sou aquele que viu os filmes há 30 anos mas percebo o que há em mim que sobreviveu àquele que fui há 30 anos. Existe, ao mesmo tempo, uma superação e uma conservação. Nós estamos permanentemente a superar-nos mas também a conservar o que superámos. 
Eu sou a pessoa de agora e a que viu os filmes há 30 anos, mas, no fundo, serei sempre uma única pessoa. Agora, não gostei tanto de ver os dois filmes. Mas gosto de ter gostado de os ver há 30 anos. Gosto de ser o que sou mas também gosto de ser o que fui. Porque gostar de ser o que se foi será sempre uma maneira de não deixar morrer o que se foi e se gostou de ser, sendo assim mais fácil gostar do que se é.