01 fevereiro, 2015

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

Andrei Tarkovski | O Espelho [fotograma]

Buiça, o homem que matou o rei D. Carlos naquela fatídica tarde de Fevereiro, compadre de Aquilino Ribeiro, frequentador do café Gelo, era um professor culto, um intelectual que acreditava na humanidade. Era ainda um homem bom e delicado. Tinha uma irmã jovem muito doente, que visitava de propósito para pegar nela ao colo e levá-la a passear pelo campo para apanhar ar puro. Matou o rei por imaginar a República como o início de uma sociedade justa. Mas ainda hesitou bastante antes de o fazer. Viúvo, havia ficado com dois filhos pequenos que adorava: Elvira, uma menina de 9 anos e Manuel, um rapaz de 4 anos. Mas uma passagem do seu testamento, escrito 4 dias antes do regicídio, explica a sua fé no futuro em nome do qual iria morrer:

"Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, orphãos".

Quatro dias depois, com 32 anos de idade, estava morto. Quatro dias depois, Elvira e Manuel, estavam órfãos de pai e de mãe.
Entretanto, a República não fez de Portugal uma sociedade livre e justa. Nem a primeira república e muito menos a segunda. A primeira tornou-se mesmo, tal como Weimar em relação a Hitler, no ovo da serpente que gerou Salazar. A História é uma coisa complicada. Muitas vezes escrita direita por linhas tortas, outras, torta por linhas direitas. A ilusão de Buíça é a ilusão de quem pensa que as acções individuais, livres e racionais, se podem sobrepor às enxurradas dos fluxos históricos. Como se a nossa pequena mão pudesse decidir a direcção do vento.
Não sei se Elvira e Manuel viveram muitos anos. Se viveram foi, com a preciosa ajuda da carabina do pai, num Portugal obscuro, miserável, triste, isolado. Não tivesse sido assim e talvez Portugal, com Luís Filipe ou D. Manuel II, reis constitucionais, inteligentes, cultos, cosmopolitas, "europeus", continuasse a aperfeiçoar a democracia nascida em 1822 como qualquer outra das monarquias democráticas da Europa que nunca chegaram a conhecer tiranos como Estaline, Hitler, Mussolini, Hosha, Ceausescu ou Salazar. Buíça, pai babado, teria continuado, como o pai de Ulisses, a ensinar os nomes das árvores a Elvira e Manuel, e estes teriam crescido num país muito diferente daquele que viriam a conhecer. E a irmã teria continuado a ser levada ao colo pelo campo. Não sei teria sido assim. Poderia ter sido assim.
Não faço ideia do que terá passado pela cabeça de Buíça naquele instante supremo e único, antes de perder os sentidos, após o tiro fatal. Terá pensado em liberdade, igualdade, fraternidade? Provavelmente. Creio, porém, que teria morrido mais feliz se, em vez de abstracções, tivesse imaginado a sua jovem irmã levada nos seus braços, tendo pela frente um enorme prado verde e florido, numa manhã quente de sol, olhando os lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria. Os lírios do campo não são monárquicos nem republicanos. Podemos olhar à vontade para eles e ver apenas lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria.