04 fevereiro, 2015

O ESPLENDOR DA SUPERFICIALIDADE

Edouard Boubat | Campo de Linho, Normandia, 1948

"When I asked him about his serene, mysterious well-being, he replied in his calm deflationary style that he was happy because he was superficial".  Michael Ignatieff, Isaiah Berlin - A Life

Ora aqui está uma coisa que não é para todos: ser superficial.
Desde a expulsão do paraíso que é isso que temos conseguido não ser. Claro que sem essa expulsão não seríamos o que somos: a civilização, a cultura, a sociedade graças à qual desenvolvemos as nossas mais elevadas qualidades. Viveríamos antes como arcádicos pastores, tocando indolentemente as nossas flautas. E só não morreríamos de tédio porque não teríamos a consciência do tédio, tal como um gato não a tem quando passa todo o seu santo dia entre uma soalheira janela e o conforto de um sofá. Mas também é verdade que ao transformarmo-nos em seres pensantes que pensam sobre tudo e sobre nada, a expulsão complicou deveras a nossa existência.
Os pensamentos deveriam ser apenas uma espécie de ferramentas, como alicates, martelos, chaves inglesas ou de parafusos, cada um deles com uma função muito específica e usados em caso de necessidade. E para continuar neste processo de descomplicação, o pensamento poderá ter um outro fim: ser um antídoto de si próprio. Tal como acontece com o veneno de uma cobra, também o pensamento deverá poder anular os seus próprios efeitos nocivos, sendo a profundidade, um deles. Pensar para percebermos que não devemos pensar tanto, pensar para percebermos que se deve refrear o pensamento, pensar para podermos travar pensamentos que, quanto mais se aprofundam, mais se enterram na areia, sufocando, sufocando, sufocando, até ficarem moribundos e afastados da verdadeira realidade.
Pensar em demasia pode ser tão pernicioso como não pensar. Quando? Quando se pensa longe, sendo preciso pensar perto, quando se pensa profundamente, estando as coisas estão mesmo à frente dos olhos, quando se pensa e o melhor seria mesmo não pensar. Tudo  isso pode tramar a vida e contribuir para uma maior dose de infelicidade do que aquela a que estamos condenados só pelo simples facto de existirmos.
Pensar e viver não são processos intrinsecamente compatíveis ou incompatíveis. Depende. Pensar bem pode ajudar a viver bem. Pensar mal, a viver mal. Muitas vezes, porém, não pensar será mesmo a condição necessária para viver bem. Podemos pensar em tudo o que existe. Mas nem tudo o que existe foi feito para ser pensado.