15 fevereiro, 2015

LES BEAUX ESPRITS RENCONTRÉS

Dorothea Lange | Deixando a sala de audiências após condenação, 1957

Voltei a ler, tantos anos depois, esta entrevista de Rosa Casaco, em boa hora republicada. Trata-se de um documento histórico de inegável valor. Mas o que me traz aqui é apenas um pormenor de natureza pessoal.
Dizia o ex-inspector que já só lia ensaio, memórias e biografias, mas no que à leitura de romances diz respeito, abria uma excepção: Camilo. Sendo mesmo, pelos vistos, um indefectível "camiliano". Eu leio isto e, não sem um sentimento de inquietante estranheza, vejo na minha mesinha de cabeceira, cuja presença se tende ali a eternizar, as cartas de Camilo ao seu amigo Visconde de Ouguela. Para ir lendo e relendo, lendo e saboreando, acompanhadas por vezes de um ou outro romance da mesma cepa só para me poder refastelar com um naco da mais bela e vernácula prosa da língua de Camões. E já por duas vezes, com espírito de peregrino, estive na casa do escritor, onde a escuridão dos seus olhos se antecipou à eterna escuridão de uma alma cuja luz, como poderia dizer Ana Plácido, era coada por ferros, só que, neste caso, os da própria vida, não os das grades da cadeia. 
Ora, isto está muito longe de fazer de um mim um camiliano. Venero, com literária deferência, a prosa do escritor, fascina-me a penitente vida do homem, interessa-me a sua tortuosa psicologia, mas a lucidez permite-me refrear a veleidade de, em frente ao espelho, poder vislumbrar um camiliano. Gosto muito de Camilo, sim, mas falta-me cálcio na ossatura intelectual e literária para ambicionar tão arrojado estatuto. De qualquer modo, não posso ficar indiferente a esta comunhão da minha alma com a alma do homem que organizou o assassinato de Humberto Delgado e voltaria a ser da PIDE se voltasse atrás no tempo.
Se o inspector Rosa Casaco dissesse que adora cozido à portuguesa, eu teria ficado indiferente, embora também adore cozido à portuguesa. Se falasse em apreciar um bom banho de mar, eu teria ficado indiferente apesar de também o apreciar. Se referisse qualquer outro prazer de ordem física que fosse também um prazer físico para mim, eu teria ficado indiferente. Os prazeres físicos são bons e recomendam-se, mas, como diria Stuart Mill, não é nos prazeres físicos que reconhecemos o que há de mais humano num ser humano. Mas o sentimento de empatia do inspector Rosa Casaco para com Camilo, convocando o meu sentimento de empatia por Camilo, acaba também por convocar em mim um sentimento de empatia para com o inspector Rosa Casaco.
É verdade que nos gostos não funciona a lógica da transitividade (A gostar de B e B gostar de C, não implica A gostar de C), nem A e B têm de gostar um do outro só porque ambos gostam de C. Por isso não tenho de gostar do inspector Rosa Casaco só por ele gostar de Camilo. E também não pretendo cair no falacioso raciocínio segundo o qual criticar uma parte de alguém implica criticar a pessoa como um todo e que gostar de uma parte de alguém implica gostar da pessoa como um todo. Ou seja, não tenho de gostar de Rosa Casaco por poder haver uma parte dele da qual eu possa gostar.
Longe de mim, portanto, a pretexto do seu simpático camilianismo, redimir o inspector dos seus miseráveis e repelentes pecados. Mas também não consigo deixar de pensar que, neste complexo labirinto que é a alma humana, é tão normal encontrar afinidades electivas desavindas como almas desavindas que, num qualquer ponto obscuro da mais obscura noite, se tocam, ainda que para irradiar uma luz que logo se volta a extinguir.