07 fevereiro, 2015

EMPATIA

Roman Vishniac | Alunos judeus, Mukacevo, 1935-38

No Doutor Fausto, Thomas Mann abre-nos a vida do compositor Adrian Leverkühn narrada pelo seu amigo Serenus Zeitblom, doutor em Filosofia. Começa, no entanto, por falar de si próprio e da sua vida, tendo eu seleccionado uma passagem onde fala da sua infância numa família católica:

«É digno de menção o facto de, ao lado do nosso pároco, o reverendo conselheiro Zwilling, também o rabino da cidade, o doutor Carlebach, frequentar o nosso lar situado acima do laboratório e da farmácia, o que dificilmente teria acontecido em casas protestantes. De ambos os clérigos, o representante da Igreja Romana era  o mais bem-apessoado. Mas, segundo a minha impressão, que continua viva em mim e talvez se baseie em boa parte na opinião do meu pai, o talmudista baixinho, barbudo, com o solidéu na cabeça, superava de longe o colega do outro credo, quanto à erudição e à argúcia religiosa. Pode ser algum efeito dessa experiência colhida na minha juventude, ou ter a sua origem na simpatia com que círculos judaicos encaravam a obra de Leverkühn, o facto é que precisamente em relação à questão judaica e ao modo como foi solucionada nunca pude concordar inteiramente com o nosso Führer e os seus paladinos, o que não deixou de influir sobre a minha renúncia ao magistério. É bem verdade que houve também entre os que cruzaram os meus caminhos, exemplares desta estirpe - basta que relembre o professor Breisacher, de Munique, - cuja índole desconcertantemente antipática me proponho iluminar em hora mais oportuna».

É muito interessante observar o modo como Zeitblom se refere ao holocausto nazi, eufemisticamente tratado como solução da questão judaica. Começa por dizer que nunca pôde concordar inteiramente. Mas, depois, faz alguma cedência. Aquele "É bem verdade que" não passa de uma adversativa que nos revela uma certa complacência perante o seu Führer.
O que eu quero realçar é o seguinte. Apesar de se tratar de um doutor em Filosofia, o que está na base da sua contradição? No caso da primeira, uma agradável e simpática recordação de infância de um judeu e o facto de haver judeus que apreciavam a obra musical do seu amigo. No caso da segunda, uma experiência negativa com um professor judeu.
Ora, apesar de ser doutor em Filosofia e estar habituado a lidar com teorias, concepções do mundo, argumentos e contra-argumentos, as suas posições perante a questão judaica não deixam ter na sua origem uma base afectiva e emocional, estando a sua sensibilidade moral alicerçada em vivências sentimentais arbitrárias e não num conjunto de princípios morais racionalmente fundamentados.
Mas não será sempre assim perante questões morais, ainda que a nossa posição seja sustentada por elaborados argumentos? Ora, se assim for, muito mais do que qualquer educação para a cidadania, qualquer estratégia formal de transmitir valores será sempre muito menos eficaz do que uma vivência positiva dos factos. É um disparate, por exemplo, explicar às criancinhas na sala de aula que devem gostar dos velhinhos, nomeadamente dos avós. Aprende-se a gostar dos velhinhos, sim, através de uma experiência quotidiana positiva e saudável com os velhinhos. Uma criança ver quotidianamente os seus pais a gostar dos avós  e a respeitá-los vale mais do que dezenas de aulas sobre o respeito pelo outro seja o outro quem for.
Na moral, a empatia vale bem mais do que a razão. O que matou os judeus não foram argumentos, razões, opiniões sobre raças, superioridade e inferioridade, beleza e fealdade. Foi a falta de empatia. Mataram-se os judeus simplesmente porque foram desumanizados, como podem ser desumanizados os velhos, os estrangeiros, os pretos ou homossexuais. E perante isto a filosofia não serve para nada.