26 fevereiro, 2015

AQUELA MÁQUINA


Kenneth Josephson | Sem Título, 1970

-Isabel é pobre. Diz a minha mãe que ela só dispõe de umas raras libras de rendimento anual. Seria interessante torná-la rica.
-Que é que consideras riqueza?
-Ricos são os que podem satisfazer os caprichos da sua imaginação. Isabel possui-a em alto grau.
Henry James, Retrato de uma Senhora, cap. XVIII


Como não pensar nesta resposta perante uma notícia assim? Claro que o presidente da Portucel está ainda muito longe dos mais ricos entre os mais ricos. Mas receber 2,5 milhões de euros durante um ano por presidir a uma empresa, permitir-lhe-á claramente satisfazer este critério para identificar uma pessoa rica. 
Eu não sei se o presidente da Portucel terá, como Isabel, uma caprichosa imaginação. E também não sei, nem quero saber, como gasta ele o seu dinheiro. Nem tenho nada contra os ricos, só tenho contra os pobres, como diria Olof Palm. Não quero, pois, centrar-me neste caso particular mas apenas no que pode aqui significar uma imaginação caprichosa.
Para lá chegar, achei por bem recorrer ao célebre exercício da máquina das experiências, proposto por Robert Nozick. Imaginemos um super-computador ao qual ligando o nosso cérebro vamos poder simular, com perfeito realismo, a realização de todos os nossos desejos. De repente, desejo ir jantar ao restaurante mais caro de NY. Meto-me no meu avião particular e lá vou eu, dormindo depois no meu apartamento de luxo na zona mais cara de Manhattan, onde vou meia dúzia de vezes por ano. Entretanto, como gostaria de ter a Scarlett Johansson como companhia para jantar, resolvo convidá-la, convite ao qual acede de imediato. No dia seguinte, regresso a Lisboa, para a minha moradia na Quinta da Marinha, em cuja garagem tenho um Mercedes CLS e um Porsche Carrera 911 4 S, e em cuja sala estão milhões de euros em pintura contemporânea. E tudo isso com o mesmo grau de evidência com que estou a escrever neste teclado e vejo a parede branca à minha frente.
Falta agora o exercício: qual a minha decisão no caso de poder deixar a minha pobre vida de professor de Filosofia numa pequena terra de província, para viver o resto dos meus dias ligado à máquina que me vai satisfazer todos os meus desejos, por muito caprichosos que sejam? Atenção: não se trata de nos ligarmos à máquina uma horinha por dia só para nos divertirmos. Seria mesmo trocar a nossa vida real por uma vida imaginária.
Diz Nozick que, à partida, uma pessoa não iria querer viver na máquina das experiências, por muito boa que a sua vida fosse, uma vez que o prazer ou a satisfação de todos os nossos desejos não são fins em si mesmos. Neste caso, sendo tudo ilusório, acaba-se por anular um outro valor importante: o da verdade. É bom, mas não é verdadeiro.
Ora, à partida, isto nada parece ter que ver com a vida do presidente da Portucel: a sua casa é real, os seus carros são reais, as suas viagens são reais, os seus restaurantes são reais, em suma, a sua vida de quem ganha 2,5 milhões de euros é tão real quanto a minha. A analogia com a máquina das experiências parece, pois, não fazer sentido. E não faz mesmo. Acontece que não pretendo estabelecer nenhuma analogia. O que eu pretendo dizer é que com 2,5 milhões de euros por ano é perfeitamente possível assumir a mais caprichosa das imaginações, como diria Ralph referindo-se a Isabel.
Porém, se a imaginação é uma natural e desejável faculdade do ser humano, viver de acordo com uma caprichosa imaginação, por muito real que seja essa existência, faz um ser humano sair dos limites do que é verdadeiramente humano, com as suas limitações, frustrações, lutas e esforços na busca da felicidade. Claro que não estou a pensar na relatividade histórica das coisas. Se um europeu de classe média do século XIX, viesse agora ao mundo e visse um europeu de classe média, iria ver uma vida marcada por uma caprichosa imaginação, onde nós vemos simplesmente uma vida normal.
O que eu pretendo dizer é que se a riqueza é um bem, o dinheiro é um bem, a capacidade de aumentar os nossos desejos é um bem, e são-no, de facto, contribuindo para uma vida boa, a imaginação caprichosa associada ao dinheiro, levando ao mesmo tipo de prazer da máquina das experiências, pode retirar a um ser humano o que de verdadeiramente humano lhe é retirado a partir do momento em que entra na máquina.
Neste caso, a máquina deixou de ser o super-computador de Nozick para passar a ser a nossa própria alma.