23 fevereiro, 2015

A MÃO NO ROSTO


Comparando o retrato na pintura e na fotografia, deve-se realçar o papel do tempo na relação do olho com a mão que, respectivamente, pinta ou dispara.
Tanto o pintor como o fotógrafo podem ser excelentes caçadores de rostos. E o resultado até pode ser igual, uma vez que há pintura cujo hiper-realismo se confunde com a fotografia e fotografia que se aproxima da pintura. Os processos, todavia, são completamente diferentes. O pintor estuda o modelo e depura-o, sabendo que, durante as horas ou dias em que o vai pintar, não irá reproduzir o rosto que se vê mas uma ideia de rosto, irredutível às suas variações quotidianas, mesmo que se trate de um rosto com fotográfica verosimilhança.
O que fez Leonardo com a natureza empírica daquela que se supõe ser a senhora Lisa del Giocondo? Conferiu-lhe uma imutável, intemporal e incorruptível identidade, sobreposta para todo o sempre às várias mutações sensíveis desse rosto. De tal modo que, se por acaso fossem agora descobertos retratos dela com outras expressões, iríamos resistir a associá-las ao rosto que fixámos na sua perene inteligibilidade e, apesar de verdadeiras, iriam muito provavelmente adquirir o estatuto de distantes e ilusórias emanações de um rosto puro e original.
Já o fotógrafo, em virtude de um processo mecânico marcado pela velocidade, é um caçador de instantes mergulhado na turbulência do real. Enquanto o pintor pensa, reflecte, imagina, projecta, dorme e sonha com o rosto que incessantemente persegue para o poder gravar num plano ideal, o fotógrafo, por muito observador que seja, por muito que conhecedor e estudioso que seja de um certo rosto, não tem tempo para isso. Não usa a mão para pintar mas para disparar. Dispara, dispara, dispara, pode mesmo conseguir o instante perfeito mas nunca tem o controle da situação, está sempre dependente das flutuações desse rosto, ao contrário do pintor, que, de um modo livre e subjectivo, anula essas flutuações. Por isso, o rosto fotografado, por muito icónico que se torne e dê a ilusão de ser o verdadeiro e único rosto daquela pessoa empírica, será sempre um rosto contingente, relativo, submetido às variações do quotidiano.
O resultado até pode ser o mesmo, e há, de facto, rostos fotografados que adquiriram o estatuto de inteligível arquétipo, mas o processo será sempre diferente. Suponhamos que no tempo de Leonardo já existia a fotografia e que um certo fotógrafo teria captado a mesma expressão de Mona Lisa pintada pelas mãos de Leonardo. Ora, o que os olhos vêem seria exactamente o mesmo mas o processo subjectivo da construção do rosto, completamente diferente. O pintor é um homem livre, um criador, um filósofo do rosto ou um artista que pensa o rosto. O fotógrafo, por muita artística que seja a sua fotografia, será sempre mais um engenheiro do rosto, alguém que precisa da máquina para caçar o rosto numa imediatez sensível que nunca lhe pertencerá. Mesmo na produção estudada de um rosto, a máquina instalará sempre uma distância entre sujeito que fotografa e objecto fotografado. Ao contrário do pintor, que pinta "de olhos fechados", absorvendo mentalmente o objecto fotografado, fazendo-o totalmente imanente, o fotógrafo, de máquina na mão, ainda que dispare centenas de vezes sobre um mesmo rosto, vê-lo-á sempre como uma realidade que o transcende e cuja posse terá sempre que dividir com a máquina que tem na mão, muito diferente do que acontece com o pintor, que partilha a posse do objecto com a sua própria mão enquanto extensão do seu espírito criador, pertencendo-lhe, assim, por inteiro.