19 fevereiro, 2015

A ILHA DE CIRCE

Garry Winogrand | Centennial Ball,  Metropolitan Museum of Art,  NY,1969

Para me ir entretendo na sala de espera de um consultório, levei um livro de um filósofo inglês chamado Stuart Mill. Neste livro, ao defender a importância do prazer na vida dos seres humanos, tenta explicar por que motivo há seres racionais que em vez de preferirem os prazeres superiores, como seria normal e previsível pois mais conformes à sua natureza, preferem os inferiores, mais afins de seres irracionais.
Tal acontece, explica, não por estarem limitados pela sua natureza, como no caso dos animais, mas por falta de tempo ou oportunidade para eles, ou por serem os únicos a que têm acesso. Razões sociais e económicas terão assim, obviamente, um peso considerável nesta espúria preferência: formação e educação deficientes, falta de condições sociais, demasiada preocupação com a sobrevivência em detrimento de uma dimensão mais intelectual e esteticamente elevada.
Mill é o responsável pela célebre boutade em que diz ser ser preferível um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito ou um tolo satisfeito. Sem dele discordar, resolvo pegar numa das revistas cor de rosa na mesa da sala para contemplar gente a quem, pela sua condição social e económica, não falta tempo e oportunidade para escolher facilmente os prazeres superiores.
Os ingleses têm fama de empiristas e de um forte apego à realidade. Neste caso, porém, Mill parece ter pensado mais numa humanidade ideal. Bastaria estar num consultório médico e ver os leitores de classe média de uma revista cor de rosa, assim como os coloridos protagonistas da mesma, para moderar o seu optimismo a respeito da natureza humana. Creio que o aumento do seu conhecimento da realidade seria inversamente proporcional ao aumento da desilusão.