19 janeiro, 2015

TERNURA CÍVICA

URSS, anos 30 (daqui)

Não resisti ao sono e adormeci, hoje, numa viagem de comboio. Acordei sobressaltado apesar de reconhecer a delicadeza do dedo que tocou no meu braço. Era o cobrador. Com um sorriso que tinha tanto de simpático como de embaraçado e culpado por me ter acordado. E que me diz, com uma ternura cívica: "Desculpe ter interrompido o seu soninho". Fiquei atónito. Num comboio, em Portugal, um homem na casa dos 40 anos a pedir desculpa a um outro na casa dos 50 por ter interrompido o seu soninho. O seu soninho.
O uso do "inho" na língua portuguesa só por si merece uma tese de doutoramento. No meu caso, porém, deu-me apenas para a política. Pensar que uma sociedade socialista poderia começar precisamente por um cobrador, pedindo desculpa por ter interrompido, com o seu delicado dedinho, o soninho de um passageiro.