04 janeiro, 2015

SANGUE ANTIGO EM TORRES NOVAS

Philippe de Champaigne | Moisés e o Dez Mandamentos

A fotografia do presidente da câmara de Torres Novas ocupa grande parte capa do último Jornal Torrejano. A fotografia é grande mas é a frase sobre ela que me esmaga com atávico prazer:

«Quando sair da câmara, a última coisa que quero é que os meus filhos se envergonhem de mim».

Há nesta frase uma gravitas que teima em soar no canto mais sensível da minha consciência. Uma antiga gravitas que me atira abruptamente para um mundo cada vez mais longínquo. Um mundo que tanto pode ser bíblico, como grego ou romano, que tanto pode ser medieval como romântico. Uma gravitas que tem acompanhado a história da humanidade como uma sombra que parecia indelével, mas que cada vez mais começa a adquirir moribundos contornos.
Não é a vergonha que pretendo destacar. Mas sim, claro, também a vergonha. A vergonha como mancha, mácula, nódoa. Mas também vergonha consubstanciada na culpa perante o erro que não devia ser cometido. A vergonha e a culpa têm uma ressonância física, uma sujidade entranhada na alma, mas que se sente fisicamente. A consciência do que faz ter vergonha é mental mas o sentimento de vergonha é físico. E não é como sentir as mãos sujas à mesa ou ter uma enorme nódoa na camisa diante dos outros. É toda a pessoa que está suja. Daí a vergonha fazer tapar a cara, baixar ou virar a cabeça, ou até fazer a pessoa esconder-se para tentar ser esquecida ainda que por momentos. 
Ora, é este sentimento físico que existe cada vez menos, resultado de uma relação mais descontraída e superficial com o erro e com o mal. Tudo na vida se torna leve e a culpa não é excepção. O sentimento de culpa é precisamente um dos grande diques da humanidade, sustento da moral que, por sua vez, sustenta a civilização. E num mundo em que tudo se torna passageiro, leve, virtual e veloz, é a própria ideia de civilização que está em risco. E se o próprio Sol não é eterno, as civilizações são-no muito menos, bastando pensar nas que já ruíram ainda que parecessem imortais.
Mas é na referência aos filhos que está o elemento mais poderoso da frase. Não se trata só de ter vergonha pelo que eu posso fazer ou poderia vir a fazer. É a vergonha dos meus filhos pelo que eu, enquanto pai, posso ou poderia vir a fazer.
Hoje, explora-se muito as republicanas ideias de cidadania e de cidadão associadas à ideia de sociedade civil. Não tem nada de errado, reconheço as suas potencialidades políticas, sociais e até morais. Mas não passam de abstracções às quais chego através de um esforço racional e dedutivo. A ideia de cidadania é uma ideia filosófica que carece de um exercício argumentativo. É preciso usar a razão argumentativa para explicar por que razão somos iguais perante a lei, temos direitos e deveres, ou o nosso estatuto e papel na sociedade em que vivemos como animais políticos. Mas a sociedade perante a qual respondemos é uma abstracção. É como a Vontade Geral de Rousseau. Um nós que é um eu, um eu que é um nós. É lindo de morrer, e matou-se muito por causa dessa bela e comovente ideia filosófica e de outras afins. Mas não deixa de ser uma abstracção.
E lá voltamos nós à jovem Antígona. O que valem as leis da cidade perante a ígnea e subterrânea linguagem do sangue? O que vale uma lei escrita por burocratas, ainda que preocupados com a justiça, comparada com o horror de ver alguém que é sangue do nosso sangue, a ser humilhado na praça pública? Antígona é jovem, mas é uma mulher antiga de um mundo antigo e de um mundo antigo que quase sobreviveu até nós.
O que Pedro Ferreira quer dizer com a frase é o que diria também Antígona ou muitas personagens bíblicas que pensam sentem e agem com base em leis que penetram no sangue e não na razão, na filosofia, na justiça humana e que, por isso mesmo, quando ao serviço de uma boa causa, tem uma força e uma amplitude muito maior. Posso aceitar o julgamento público face aos meus erros, posso ir a tribunal, ser condenado pelas leis humanas, ser criticado, mal falado pelas ruas e cafés da minha terra, mas nada disso se compara à vergonha de um filho que vê o nome de um pai manchado.
Touché.