14 janeiro, 2015

PROCRUSTES 2.0

Annemarie-Heinrich | A Mão, 1953

No suplemento Science & Médecine do Le Monde de hoje (sem link, apenas artigo parcial), num artigo intitulado A inteligência artificial vai matar o dinheiro, avança-se com a possibilidade de uma sociedade comunista alcançada através do desenvolvimento tecnológico. Vejamos o argumento.
Segundo um engenheiro-chefe da Google, prevê-se que em 2045 vamos ter mecanismos de inteligência artificial dotados de uma consciência um bilião de vezes mais poderosa do que todos os cérebros humanos juntos. Ora, a única maneira de não sermos esmagados por ela é não ficarmos atrás. Para que tal seja possível, deverão introduzir-se nanorobots intracerebrais nos nossos neurónios, aumentando assim exponencialmente a capacidade de todos os seres humanos. Ora, se isso acontecer, será a morte do homem biológico tal como nós o conhecemos. Porém, as consequências sociais e políticas poderão ser extremamente benéficas. 
Sermos todos igualmente inteligentes é o fim de uma sociedade marcada pela meritocracia, onde as diferentes capacidades se irão reflectir nos percursos sociais e económicos dos indivíduos, ainda para mais numa sociedade onde o trabalho desaparecerá e, por consequência, o dinheiro a ele associado. O normal será então uma distribuição igual de bens e serviços a todos os indivíduos, como ele diz, um comunismo 2.0, onde cada um receberá de acordo com as suas necessidades, não pelo valor económico e social do trabalho que cada um realiza em função das suas capacidades individuais. E termina com fina ironia, afirmando que será a inteligência artificial e não Thomas Piketty a suprimir as desigualdades, não resistindo o capitalismo a esta verdadeira revolução tecnológica.
Esta previsão pode ser simpática, sobretudo para quem acredita numa igualdade entre todos os seres humanos. Eu, porém, vejo-a com horror, vislumbrando mais uma vez a tenebrosa sombra de Procrustes. Na mitologia grega, Procrustes era um malfeitor que convidava as pessoas para pernoitarem em sua casa, onde havia apenas uma cama à qual todos se teriam de ajustar independentemente da sua estatura. Aqueles cuja altura fosse inferior ao comprimento da cama, eram esticados. Àqueles cuja altura fosse superior, eram amputadas as pernas. Não seriam assim diferentes camas a ajustarem-se a diferentes pessoas, mas as diferentes pessoas a ajustarem-se a uma única cama imposta a todas elas.
Este terror procrustiano pode ser vislumbrado em toda a distopia na qual um determinado modelo de perfeição anula a diversidade e o pluralismo subjacentes à natureza humana. Claro que podemos perseguir a ideia de uma igualdade e justiça absolutas onde não haja lugar para a imperfeição, o erro, o acaso, a imprevisibilidade. O problema é que para a concretizar leva-se tudo à frente, sendo os seus terríveis efeitos secundários muito superiores aos benefícios.
Se o comunismo, por via revolucionária, nascido no século XIX, foi o que todos sabemos, não deixando quaisquer saudades, este comunismo por via tecnológica será infinitamente pior, pelo menos para nós, seres humanos enquanto seres humanos. Pelos pós-humanos que virão não poderei falar. Mas também, felizmente, já cá não estarei para ver.