18 janeiro, 2015

PENBRIDGE

Bill Brandt

Não faz sentido comparar a humilde cidade de Penafiel com o glamour universitário de Cambridge. E é verdade que o treinador do Penafiel não tem o esmagador pedigree intelectual de Stephen Hawking. Mas também não é menos verdade que o treinador do Penafiel revela uma subtileza filosófica que deixa a do cientista britânico a milhas de distância. 
Antes do Mundial de futebol, o génio da matemática e astrofísica afirmou que um aumento de 5 graus na temperatura iria reduzir em 59% a possibilidade de uma vitória da Inglaterra, selecção que teria igualmente mais possibilidade se jogasse 500 metros acima do nível do mar. É interessante comparar a sua leitura do real com este comentário do treinador do Penafiel à derrota da sua equipa perante o FC Porto.
Hawking é filho do ridículo Bazarov, neto do iluminismo ortodoxo e bisneto do racionalismo cartesiano. Alguém incapaz de viver num mundo cuja textura íntima escape a padrões racionais, exilando a inteligência humana num território mental feitos de causas rígidas, cegas fórmulas matemáticas e inexoráveis leis, e onde não há lugar para os mais subtis e imprevistos movimentos no âmago da realidade particular.
É precisamente nessa realidade que vive o treinador penafidelense, homem cuja elevação filosófica e flexibilidade epistémica é de louvar. Rui Quinta nem sequer cai na tentação de dizer que perdeu porque o FC Porto, teoricamente, é melhor equipa, tem um plantel mais forte, era, à partida, favorito. Se o fizesse estaria ainda no campo do preconceito científico. Mas não. Abandona por completo os pressupostos teóricos do pensamento, arregaça as mangas do mais puro esprit de finesse para poder mergulhar na lógica dinâmica do particular: o FC Porto, naquele tempo, naquele espaço, naquelas condições, foi a equipa que melhor se adaptou às condições do terreno e que melhor soube contornar as adversidades. O mundo de Rui Quinta não é um mundo de leis que adormecem as emoções como o movimento mecânico de um pêndulo. É um mundo homérico onde no campo de batalha há lugar para a adversidade, o drama, o imprevisto. O FC Porto não ganhou por ser melhor, ganhou porque naquele jogo foi melhor, e melhor soube resistir à imprevista fúria das águas no terreno do jogo. Realidade tão simples, tão clara, tão evidente, que só mesmo o mais brilhante e inteligente dos cientistas fica incapaz de ver.