07 janeiro, 2015

OS NOMES DAS ÁRVORES


Há coincidências engraçadas. Eu tinha acabado de escrever esta coisa quando, ao jantar, vindo do nada, o meu filho pergunta qual é considerado o melhor filme de sempre. Eu respondo, baseando-me em inquéritos feitos a críticos. Ele pergunta a razão e eu tento explicar porquê. Entretanto, pergunta-me qual é o melhor filme para mim e eu lá respondo. Pergunta-me porquê e eu lá explico.
Eu não sou crítico de cinema e as minhas razões nada têm que ver com as razões dos especialistas. Mas sei que o impacto do meu filme não é o mesmo impacto do filme dos críticos. E não o digo por ser eu, nem se trata de soberba paternal, mas apenas por transpor para o plano individual aquilo a que Herder chamava de Einfühlen e que podemos traduzir por empatia. Ele e um italiano chamado Vico foram dois homens que recusaram a ideia iluminista de que existe uma natureza humana que é igual em todos os tempos e lugares e que o caminho para a virtude e felicidade pode ser indicado pelo mesmo modo racional e científico com que são explicadas as leis da natureza.
A ideia até parece simpática. O problema são os excessos e os fanatismos resultantes da crença de que ideias e valores universais e impessoais se devem sobrepor ao que se desenvolve organicamente na vida concreta das pessoas. O que eles disseram é que o centro de gravidade da vida humana não é o Homem mas as diferentes culturas, com as suas línguas, tradições, folclores, religiões, onde nos formamos e vivemos as nossas vidas. Uma tradição pode não ser racional ou até parecer ridícula. Mas é um caldo humano onde se criam laços e onde se aprende a viver de um modo particular, dando uma identidade que não se confunde com mais nenhuma outra.
Eu não estou a dizer que o rapaz tenha dado especial importância à minha resposta sobre o «meu filme». Mas também não acredito que se trate de uma pergunta inocente feita por um filho a um pai. Os críticos terão as suas razões, técnicas e racionais, para eleger o melhor filme de todos os tempos. Mas o filme de um pai será sempre o filme de um pai, por muito pouco relevantes ou até estúpidos que sejam os motivos, e no meu caso até serão. Aprender não é só aprender racional ou tecnicamente nos livros ou na escola. É também criando laços afectivos com os que são mais próximos, ainda que analfabetos e ignorantes.
Quando, 20 anos depois, Ulisses regressa a Ítaca, vai ter com o pai. Este, julgando o filho morto, não acredita que o homem que está à sua frente é Ulisses, e pede-lhe que o prove. E Ulisses responde:

           Nomear-te-ei as árvores que me deste no bem tratado
               pomar, quando eu, ainda criança, te seguia pelo jardim.
           Passámos por essas árvores: tu disseste-me os nomes
                   e explicaste como era cada uma. Deste-me treze pereiras,
                        dez macieiras e quarenta figueiras. Prometeste-me também   
        cinquenta renques de cepas; cada uma amadurecia
                na época própria, com cachos de uvas de toda a espécie
  quando descessem do céu as estações de Zeus. 
                                                                                           Canto XXIV

Não vemos apenas um filho a tentar provar factualmente quem ele é a um pai que não o reconhece. Vemos um filho a dizer que é quem é por ser filho daquele pai. Não se trata apenas de ter aprendido com ele os nomes das árvores. Qualquer pessoa lhe poderia ter ensinado os nomes das árvores. Mas não é a mesma coisa. Um nome não é apenas um nome: é o nome ensinado por alguém que não é mais ninguém.