21 janeiro, 2015

O SUPLÍCIO DE TÂNTALO

Ramón Masats

O que será melhor? Estar cheio de sede no meio do deserto ou com um copo de água encostado aos lábios mas sem poder bebê-la? Ter sede é ter sede, seja em que circunstância for. Mas a penitência será maior perante a possibilidade de beber a água que não é possível beber.
Daí ser preferível o estado de inconsciência perante um bem que nos falta, do que viver com a consciência da sua inacessível existência. A chatice está no raio do conjuntivo. Uma vida inteligente sem o modo conjuntivo seria menos inteligente mas muito mais fácil de ser vivida. E tanto me refiro ao presente do conjuntivo como ao pretérito imperfeito do conjuntivo ou ao futuro do conjuntivo.
O modo indicativo dá-nos a realidade mas o conjuntivo dá-nos a merda da possibilidade. E se é verdade que é por via da possibilidade que nos elevamos a um nível de existência superior, também é por via da possibilidade que nos atolamos no pântano do sofrimento. Tivéssemos apenas o modo indicativo, passado, presente ou futuro e esse mesmo passado, presente ou futuro seriam simples como um nascer ou pôr do Sol. Diríamos "Eu fiz, faço, farei", "Eu fui, vou, irei", com a mesma inconsciência mecânica com que a ninfa Eco repete os últimos sons de Narciso, ou com a mesma determinação com que um animal cumpre as suas obrigações. Mas depois vem o conjuntivo e estraga tudo. Olha-se para o passado e pensa-se no que poderia ter sido, olha-se para o futuro e pensa-se no que poderá vir a ser. E, a partir daí, tudo se torna labiríntico, tortuoso, infinitamente complexo.
Eu gosto do mito adâmico e não me desagrada a ideia de ser filho de Adão. Mas foi com Tântalo que começámos verdadeiramente a ser humanos.