27 janeiro, 2015

O SOM SEM FÚRIA


«A princípio vi outros visitantes, na sua maioria casais ou pequenos grupos, a caminharem ao longo da linha férrea ou entre os barracões de madeira que ainda existem, e vários passaram por mim a caminho da saída. Mas à medida que fui avançando para o interior do campo, com a luz natural a esmorecer, a escuridão a cair e a temperatura a descer para os zero graus, vi cada vez menos pessoas, os sons das suas vozes cessaram e, por fim, tive a sensação de que me encontrava completamente sozinho. Em circunstâncias normais, teria retirado as próteses para dar descanso aos ouvidos, mas mantive-as nas orelhas, porque queria ouvir o silêncio, um silêncio interrompido apenas pelos meus sapatos a esmagarem a neve espessa, o ocasional ladrar de um cão ao longe e o melancólico apito de um comboio».


Desmond Bates, a personagem principal de A Vida em Surdina, de David Lodge, está em Cracóvia para uma conferência. Aproveita para fazer algum turismo pela cidade, nomeadamente, ver o quadro Dama com Arminho, de Leonardo da Vinci, no museu Czartoryski. Entretanto, estando em Cracóvia, não quer perder a oportunidade de visitar os dois campos de Auschwitz. Esta passagem do livro é precisamente sobre um momento dessa visita. 
Desmond Bates está a ouvir cada vez pior e a sua relação com o aparelho não é nada fácil. São várias as situações ao longo do romance em que se percebe o seu esforço para conseguir ouvir os outros. Porém, neste caso, e paradoxalmente, Desmond coloca o aparelho, não para ouvir sons mas para ouvir o próprio silêncio.
Desmond, sendo surdo, está habituado ao silêncio, a viver no silêncio. Como explicar então o facto de colocar na orelha um aparelho que serve para ouvir melhor mas para ouvir o silêncio? Que tipo de silêncio será este? Não se trata de um silêncio subjectivo, como o seu, resultado de uma deficiência auditiva. Trata-se, sim, de um silêncio denso, material, inerente ao próprio real. Enquanto o silêncio da surdez é um silêncio vazio, um silêncio sem consistência ontológica, silêncio apenas enquanto ausência de som, este silêncio tem uma textura que se sente no ouvido como outras texturas se sentem na pele.
O som dos sapatos na neve espessa, o ladrar do cão ao longe, o melancólico apito de um comboio têm, aqui, o mesmo efeito que o silêncio na música. A música é feita de sons e de silêncios. Paradoxalmente, no caso de Desmond, é como se o silêncio fosse a música que ele está a ouvir enquanto os sons que ele ouve são o silêncio da música, em contraste com esta, aumentando assim ainda mais o seu poder. Uma música inaudível mas onde está tudo o que é preciso ouvir.