02 janeiro, 2015

LIÇÃO DE FILOSOFIA POLÍTICA NO CONTINENTE DE TORRES NOVAS


Num dos supermercados Continente de Torres Novas, as pessoas deixaram de poder escolher a caixa para pagar. Agora, forma-se uma fila única e as pessoas vão sendo chamadas para as caixas à medida que estas vão ficando livres. Quando me deparei pela primeira vez com esta situação, senti a minha liberdade e poder individual a serem limitados por um poder superior que me ultrapassa. E não gostei.
Há várias coisas na vida que não gosto de fazer embora delas não possa fugir. Estar na bicha de um supermercado é uma delas, ainda que me entretenha a ver as capas de revistas cor de rosa e de telenovelas. Por causa disso, fui aprendendo a aguçar o meu instinto de sobrevivência em bichas de supermercado, desenvolvendo um olho clínico graças ao qual percebo qual a caixa para que me devo dirigir por ser aquela onde a possibilidade de me despachar se revela mais verosímil. Não padeço de vaidade, arrogância ou sobranceria, mas sou obrigado a reconhecer que a experiência de muitos anos a fazer compras fez de mim um fura-vidas em caixas de supermercado. Sou bom e sei que sou bom, e não consigo deixar de sentir um certo prazer por este meu dom, mas também sem deixar de sentir por vezes uma certa piedade pela incapacidade de outros para se orientarem eficazmente neste cruel e implacável mundo das caixas de supermercado, sobretudo aos fins-de-semana, quando a vontade individual de cada comprador entra em conflito com a vontade individual de todos os outros, impedindo assim a possibilidade de uma Vontade Geral na qual todos os compradores se revejam.
Mas ser bom ou mais esperto do que os outros não é suficiente. Eu sou bom e mais esperto do que os outros mas, mesmo assim, já me tramei muitas vezes. Por exemplo, escolher a caixa 6, graças a uma racional deliberação associada ao meu instinto natural, mas percebendo depois que factos impossíveis de prever e controlar são mais forte do que uma boa decisão, atrasando estupidamente o andamento da bicha onde me encontro. Sou esperto e fura-vidas, é verdade, mas a vida também é feita de sorte e de azar, que tanto beneficiam ou prejudicam quem nada fez para ser beneficiado ou para ser prejudicado.
Ora, eu sou esperto e fura-vidas, quero continuar a perder o menos tempo possível no supermercado, mas também sou sensível à injustiça, sensibilidade essa reforçada com o que acabei de referir a respeito da sorte que beneficia quem não a merece mas também do azar que prejudica quem nada fez de errado para passar mais tempo numa bicha do que aquele que seria suposto passar.
Por isso, rapidamente percebi que este sistema da bicha única é o mais justo. Há um poder superior que limita o meu poder, a minha liberdade individual, o meu absoluto livre-arbítrio, ou mesmo algumas capacidades superiores que devo tanto à minha natureza pessoal como à minha experiência de vida? Sim, é verdade, tudo isso fica limitado pela bicha única para a qual me dirijo juntamente com todos os outros. Mas isso também faz com que haja um equilíbrio, uma proporção, uma harmonia, uma justa medida entre a minha vontade, os meus desejos e os meus objectivos e a vontade, os desejos e objectivos de todos os outros.
Nós somos todos diferentes, e ainda bem que somos diferentes. Mas uma sociedade onde essas diferenças se tornem radicais e intransponíveis, será sempre uma sociedade desequilibrada, doente, uma sociedade na qual uns se revêem muito mais do que os outros, coisa que não é bonita de se ver uma vez que estamos todos no mesmo supermercado. Em suma: uma sociedade injusta.
E iremos continuar a ser todos diferentes. Aliás, no supermercado, cada um circula por onde quer e dirige-se para os produtos que quer. Uns para os lacticínios, outros para o pão, para a carne, o peixe ou os detergentes. Cada um sabe o que mais lhe agrada e o que mais falta lhe faz, sempre que se dirige para um supermercado. Mas há um momento em que nos tornamos todos iguais porque já não tem que ver com uma questão de gosto ou necessidade pessoal. Tem que ver com uma coisa que é comum a todos: o desejo de sair dali o mais depressa possível. E naquilo que é comum a todos, deverá sempre existir um poder superior que lime as arestas irregulares que nos afastam, que impeça o esperto de anular o menos esperto, o mais forte e saudável de anular o mais frágil e doente. Esse poder, essa voz que nos chama individualmente para a respectiva caixa sem ter de atropelar ninguém, depois de cada um ter comprado o que bem quis, chama-se Estado.