12 janeiro, 2015

ISLAMIZAÇÃO COOL

Steve Mcurry | Itália

Quando, por razões demográficas, se pensa numa Europa islamizada, não devemos ser arrastados pelos medos irracionais de uma extrema-direita racista e xenófoba. Nunca haverá uma islamização da Europa. Por várias razões.
Ser muçulmano não é ser fanático, radical e pressupondo uma agenda política oculta. A única coisa que a esmagadora maioria dos muçulmanos deseja, aliás, como qualquer outro povo, é viver tranquilamente as suas vidas e foi isso que os fez vir para a Europa, tal como os portugueses para França ou para o Luxemburgo.
Com algumas excepções, aliás, compreensíveis, os processos de aculturação não vão no sentido de uma cultura anular a outra. A história da Europa, e a Península Ibérica é um caso exemplar, para já não falar dos Estados Unidos, é uma história de misturas culturais. Não existe uma Europa pura e culturalmente imaculada, um europeu puro e culturalmente imaculado. Qualquer povo já é naturalmente influenciado por outros povos e culturas, e ainda bem para ele. Agrada-me mais uma Paris, Londres ou Nova Iorque multiculturais do que Sana, Riade ou Cabul, sociedades fechadas e com uma pura e imaculada identidade cultural. E mesmo que venha a existir uma maioria muçulmana nalguns países europeus, isso não é motivo para começarmos a imaginar as loiras mulheres francesas e holandesas vestidas de burqa, os ingleses proibidos de comer carne de porco ou os belgas e dinamarqueses obrigados a ajoelharem-se várias vezes ao dia na direcção de Meca.
Por outro lado, uma dose razoável de islamização da Europa pode trazer inestimáveis benefícios. Cada vez lamentamos mais a crise de valores, a falta de rumo, a decadência, o materialismo, o consumismo, o sexo fácil, o niilismo, a vacuidade da vida moderna. Ora, sermos influenciados por culturas que propõem outros projectos existenciais e espirituais pode ser um bem que não deve ser desprezado. Isso não significa deixar de ser o que somos mas apenas refrear uma parte do que somos e que pode e deve ser refreada.
A maior riqueza da história não são as identidades puras sem qualquer negatividade dialéctica. A maior riqueza da história são as sínteses. E sínteses que fluem naturalmente, sem espadas, espingardas ou bombas.