30 janeiro, 2015

IMPUTABILIDADE

Hyeronimus Bosch | Extracção da Pedra da Loucura,  c,1494

Um homem estrangula a filha de sete anos com o cinto do roupão. Confessa o crime mas sem conseguir explicar porquê. A sua incapacidade para explicar não é um sinal de indigência e muito menos de demência, mas a reacção de um homem absolutamente normal. Só um monstro a roçar as margens do inumano teria conseguido dar uma razão plausível para matar a sua filha de sete anos. Razões, meticulosamente explicadas e até com suporte científico, foi o que deram os nazis para matar judeus, os comunistas para os os seus milhões de mortos na URSS, na China ou no Cambodja, ou que dão os radicais islâmicos na Síria, Iraque ou Nigéria. Ou que dá o marido que explica por que assassinou a mulher. Cuidado com as razões. Pode haver loucura na razão ou razão na loucura.
Não se pode dizer que andar a matar filhas seja um comportamento normal. Felizmente, não é. Mas haverá poucas coisas tão humanas como fazer o absurdo sem saber explicar porquê. Inimputáveis serão pois os outros, aqueles que fazem o mal com o brilho da sua inteligência e racionalidade.