11 janeiro, 2015

CULTURA GERAL

André Kertész | Série On Reading

No século XVIII, mais do que um philosophe invocou uma reforma radical da educação no sentido da razão e das Luzes. O estudo de línguas mortas, da história, das disciplinas humanísticas em geral, devia ser rapidamente abandonado e substituído pelo uso dos novos instrumentos da descoberta da verdade - as ciências naturais, incluindo as da sociedade, nas quais se punham grandes esperanças -e pela instituição de princípios cívicos de tipo utilitário. Isaiah Berlin, Cultura Geral*


Anabela Mota Ribeiro pergunta hoje na revista do Público, o que é ser culto hoje. Com toda a sinceridade, não sei responder, uma vez que os padrões, as referências, os cânones culturais mudaram bastante nas últimas décadas. Mas, independentemente disso, gostaria de referir a importância da cultura geral, não como exercício bacoco de erudição ou simples espírito enciclopédico esgotado em si próprio, mas como sabedoria aberta e versátil.
Quando eu andava na faculdade abominava a ideia de "cultura geral", socorrendo-me daquele aforismo de Heraclito onde opõe a vacuidade da polimatia (cultura geral) a uma busca racional da verdade. A cultura geral era, para mim, cultura de lista telefónica, exibicionismo burguês, simples entretenimento que exclui o pensamento e a reflexão. Mais  tarde vim a perceber que estava errado e o texto de Isaiah Berlin ajuda a perceber porquê.
A sua clara apologia da cultura geral tem por base razões sociais e políticas mas também civilizacionais. Um dos seus grandes combates consiste na denúncia dos perigos de uma visão do mundo e da vida unilateramente orientada pela razão, e que tem as ciências naturais como modelo. Ora, a cultura geral impede os estudantes de ficarem reduzidos a uma área de especialização, permitindo viverem uma vida intelectual mais livre e aberta. Mas também evitar que os políticos fiquem à mercê das ideias e projectos de especialistas "só com um olho" que, com a  sua ideologia tantas vezes travestida de ciência e objectividade racional, acabam por impor uma única porta para aceder à realidade e ao auto-conhecimento do ser humano.
A cultura geral permite entender que existem várias leituras do mundo, vários processos mentais, várias linguagens, várias sensibilidades. A cultura geral abre horizontes, torna o espírito humano mais elástico e impede uma submissão da diversidade colorida ao perigoso império de uma razão desenraizada. Há, hoje, inúmeros campos onde este perigo se faz sentir, onde o excessivo peso de uma mentalidade tecnocrática, racional, científica, planificada, utilitarista, pode deitar a perder séculos e séculos de conquistas civilizacionais. A escola, por exemplo. E é profundamente dramático ter a consciência de que podemos começar a morrer precisamente no lugar onde começámos a crescer.

*O Poder das Ideias