08 janeiro, 2015

BRISA CONTÍNUA

Ann Mansolino | Série Thresholds I, 2000-04

HÍPAS: É exactamente nesse ponto, Sócrates, que não posso estar de acordo contigo.
SÓCRATES: E nem sequer eu comigo, Hípias! Nestas matérias, tudo o que faço é derivar ao sabor da corrente, sem jamais ter opinião certa. [Platão, Hípias Menor -376 c]

GLÁUCON: Adivinho já que queres examinar se havemos de receber na cidade a tragédia e a comédia, ou não.
SÓCRATES: Talvez-declarei- talvez até ainda mais do que isso. Ainda não sei ao certo; mas por onde a razão como uma brisa, nos levar, é por aí que devemos ir.  [Platão, República, 394d] 

Gosto da ideia de derivar ao sabor da corrente, sem jamais ter opinião certa e deixar a razão ser levada pela brisa. Significa isto alguma forma de alienação ou alheamento? Não. Significa que conhecemos apenas o ponto de partida mas sem conhecermos previamente o ponto de chegada. Os pontos de partida são de grande frescura intelectual mas os pontos de chegada previamente direccionados, ainda que justificados, podem ser perniciosos. Platão quis ser o ponto de chegada de Sócrates e matou-o. S. Paulo quis ser o ponto de chegada de Jesus de Nazaré e, não o matando, tornou desde logo o cristianismo moribundo. Sócrates e Jesus de Nazaré, duas figuras maiores da cultura ocidental, nada escreveram. Falaram, e muito, mas nada escreveram sobre o que falaram e o que falaram era demasiado arejado para ficar preso em claustrofóbicas folhas de papel com pontos de chegada previamente determinados.
Há uns anos tive um aluno que, num teste, referiu que o que acabara de escrever era a sua opinião mas que não concordava com ela. A minha primeira reacção foi pensar que o rapaz não batia bem da cabeça. Mas depois pensei melhor e achei aquilo tão espantoso que ainda hoje me sinto desafiado por esse aparente desvario. É mesmo isso que eu quero: o privilégio de poder não concordar com a minha própria opinião. O mundo já está suficientemente cheio de pessoas  que, ao contrário do que diz Sócrates, concordam demasiado consigo mesmas. Com as suas doutrinas, ideologias e ismos, as certezas tão típicas de quem acredita que a direcção do vento é sempre igual.
Eu prefiro pensar sem destino. E se as águas do riso forem tépidas e a brisa que me leva for suave, não tenho qualquer pressa de chegar.