22 janeiro, 2015

ALL THAT JAZZ


Já é sobejamente popular, levando pais e educadores a pavlovianamente salivar, a ideia de que aprender música, sobretudo clássica, ou a tocar um instrumento (presumo que não inclui a bateria e o berimbau) contribui para desenvolver a inteligência das criancinhas. Mas há mais boas notícias para os fanáticos da inteligência: quem gosta de jazz, para além de inteligente, é também criativo. 
Acontece que isto para mim não são boas notícias. São péssimas notícias. Não pela associação entre música e inteligência ou criatividade. Nada tenho contra pessoas inteligentes e criativas e creio que é melhor ser inteligente do que estúpido. É pelo modo como isto contribui para assassinar o sentido da música e pelo tenebroso modelo funcionalista que lhe está subjacente.
É um crime de lesa-música levar as criancinhas a aprender ou a apreciar música porque contribui para o desenvolvimento do seu raciocínio lógico-matemático e, ficando mais inteligentes irão ser mais facilmente pessoas de sucesso, os melhores alunos das suas turmas, com as melhores médias e, posteriormente, pessoas muito felizes, realizadas, com bons empregos, belas casas e com futuros filhos com uma inteligência lógica-matemática racionalmente tão prodigiosa quanto a dos seus pais de sucesso.
Aprender violino, saber tocar uma sonata para piano ou simplesmente alguém sentar-se num sofá para ouvir um quarteto, uma sinfonia ou Charlie Parker a vaguear, passa a estar para a inteligência matemática como um prego que serve para espetar um quadro na parede. Tocar Mozart para vir a ser um dia engenheiro, aprender piano para ajudar a entrar em Medicina anos depois, ouvir Coltrane e Thelonious Monk aos 8 anos para, quem sabe, tirar Gestão na Nova e vir a ser um dia CEO na City, com um bocado de sorte, com vista para o Gherkin.
Não estará já a chegar a altura de ir ao armário retirar os românticos do século XIX para lhes sacudir a poeira e metê-los por aí a arejar? Ainda teriam muito para nos ensinar.