01 janeiro, 2015

A CEGUEIRA DE GUIZOT


Eu não trago aqui Guizot por causa do que ele pensou como historiador ou do que fez como político. É só, e mesmo só, por causa deste seu retrato pintado por Paul Delaroche, embora associado ao facto deste dia ser uma fronteira entre um ano que acabou e outro que começa. Ao contrário do deus Jano, cuja face dupla permite ver ao mesmo tempo o passado e o futuro, Guizot aparece aqui completamente virado para um lado e de costas para o outro. Eis a pose ideal para um historiador, alguém cuja essência é olhar para o passado, alguém cujos olhos estão direccionados para o que foi, sendo, como qualquer outra pessoa, absolutamente cego para o que ainda não foi.
Bem sei que o pintor não teve qualquer intenção em submeter esta pose a quaisquer tipo de simbolismos desta natureza. Mas não deixa de ser engraçado aproveitar a pose para exprimir o contraste entre a visão do passado para o que foi e a cegueira diante do que será. Guizot, enquanto historiador e político, pode ter sabido muito a respeito do passado e do presente. Mas um sábio do passado e do presente será sempre um ignorante do futuro. A linguagem pode tentar traduzir o sentido do presente e do futuro. Mas quando se trata de futuro, a linguagem balbucia e a retórica passa-se toda para o lado da realidade, e os acontecimentos, como alguém disse, são mesmo a retórica da realidade contra a qual pouco poderá a retórica do discurso e do pensamento. Haverá sempre uma vitória da realidade ou dos acontecimentos sobre a linguagem, realidade que anda sempre dois passos à frente da linguagem e, por isso, nunca haverá discurso para o que ainda não foi. Como diria Guizot, a realidade ultrapassa a própria imaginação, os acontecimentos estão sempre para lá do que os seres humanos podem imaginar. E é disso que devemos estar sempre à espera quando começa um novo ano. Que deus nos proteja.