17 janeiro, 2015

A CAVE

Philippe Halsman | Ballet Aquático, 1953

Para reflectirmos sobre questões morais tanto podemos ir das ideias para a vida como da vida para as ideias. Diferença bem ilustrada por Rafael na Escola de Atenas, onde Platão surge com o dedo elegantemente apontado para o alto, enquanto Aristóteles estica o braço para a frente.
Como ponto de partida para discutir e reflectir sobre o que pode ser uma vida boa, John Kekes, um filósofo conservador, propõe substituir o pensamento filosófico de platónico dedo em riste, demasiado geral e descarnado, pelos exemplos da literatura e de biografias. Diz ele que uma leitura inteligente e reflexiva de certas personagens permite jogar com diferentes formas de vida, desde as mais felizes e gratificantes às mais frustrantes e infelizes. Em vez de fazermos com Kant em busca da lei moral dentro de nós, dialogamos com personagens da literatura com cujas experiências, erros e virtudes podemos aprender a viver melhor e a evitar muitos erros.
Eu percebo o quanto estimulante pode ser imaginar-me a tomar chá com Emma Bovary, Anna Karenina, Isabel Archer, a comer javali com Macbeth, a dar um passeio a pé com Julien Sorel, Pierre Bezukhov ou Martin Eden, beber um copo de vinho e uma fatia de queijo com Jean Valjean ou Ivan Karamazov, a ir à pesca com Robinson Crusoe ou sentado à beira de um regato com a pastora Marcela. Mas ser intelectualmente estimulante é uma coisa, consequências benéficas daí resultantes, outra. É que por muito concretas que elas sejam, as vidas dos outros, os grandes exemplos, sejam bons ou maus, convertem-se necessariamente em fantasmas no interior da nossa consciência. A consciência de que fumar faz mal não é suficiente para deixar de fumar. A consciência de que peixe cozido com legumes é mais saudável do que um suculento bife de carne vermelha com batatas fritas cheias de sal, não nos faz comer o peixe.
É verdade que a consciência reflexiva do que é uma vida boa ou má, de um erro grave ou de uma qualidade admirável, trazem alguma luz ao nosso caminho. A história das ideias está cheia de luzes, algumas delas mais parecendo um esplendoroso fogo de artifício para festejar verdades absolutas. O problema é que não é a consciência e a inteligência que comandam a vida mas a vontade. E a vontade nem está lá em cima, para onde aponta o dedo de Platão, nem à frente dos olhos de Aristóteles. A vontade é uma cave húmida e escura onde nunca se sabe o que se pode encontrar.