31 janeiro, 2015

31 DE JANEIRO

Cartier- Bresson | Terreiro do Paço, 1955

Se a revolta de 31 de Janeiro de 1891 tivesse singrado, o 5 de Outubro passaria a ser um dia tão invisível como o dia, sei lá, 15 de Março, 7 de Maio ou 12 de Novembro de 1910. Datas sem história. E o 31 de Janeiro passaria a ser uma dia cheio de densidade histórica, feriado nacional até há pouco. Mas apesar de a república chegar a ser proclamada nesse dia, a revolta falhou e foi preciso esperar mais uns anos.
Seria tentador fazer uma analogia entre um processo histórico desta natureza e os processos científicos que funcionam por tentativa e erro. Antes de chegarem a uma meta, os cientistas desperdiçam imensos recursos que vão parar ingloriamente ao lixo, sem história que os registe. Mas há um fim. Que pode demorar a chegar, após muitas tentativas e muitos erros, mas um fim.
Como disse, poderíamos tentar compreender o 31 de Janeiro como uma tentativa falhada, anterior à verdadeira tentativa que nos conduziria ao resultado pretendido. A analogia parece tentadora. Mas trata-se, infelizmente, de uma falsa analogia. A ciência sabe que há um fim, qual é o fim e para que serve esse fim. Portugal alcançou a república, é verdade. Só que a república não é um fim, a república tornou-se um novo problema para resolver. Como, aliás, quase tudo em Portugal. Vamos sempre caminhando. Só que, de erro em erro, sem nunca chegarmos a saber muito bem para onde e para quê.