15 dezembro, 2014

O PRESÉPIO EM RUÍNAS

Ingmar Bergman | Fanny e Alexander

Era com uma mistura de fascínio e ansiedade que via chegar o momento de fazer o presépio. Enorme, uma paisagem sobre cujas planície e colinas verdes se distribuíam as ovelhas, o poço, o moinho, a igreja, os casebres, o lago dos patos feito com um espelho, a banda da aldeia a tocar, pastores, o moleiro e outras enormes miniaturas que jamais esquecerei e das quais vou matando saudades nalgumas pinturas de Bruegel e outros flamengos.
Ia apanhar musgo. Lembro-me da descoberta do cheiro do musgo, da textura do musgo, da terra do musgo agarrada. Depois, tirava as peças das caixas onde repousavam durante um ano, ajudava a distribuí-las pela paisagem que, à noite, era iluminada por uma luz sobrenatural graças a mágicas lanternas feitas de cascas de caracol com algodão embebido em azeite no seu interior. A casa deixava de ser apenas uma casa para passar a ser também um teatro a iluminar a triste escuridão do Inverno.
Entretanto, cresci e deixei de ligar ao presépio. Os meus olhos aprenderam a olhar só para a frente e era só para a frente que desejavam olhar. Nunca mais voltei a fazê-lo e nem duas crianças em casa serviu de pretexto para voltar a fazê-lo. Hoje, tenho pena de não fazer o presépio. De já não ir para o campo apanhar musgo e passar uma fria, cinzenta e chuvosa tarde de sábado, dentro de uma casa quente a tirar as peças das caixas para erguer uma velha aldeia cujo centro é um estábulo onde repousa o Menino Jesus afagado pelo atávico, telúrico e protector calor de dois animais. Como tenho igualmente pena de que tenha sido substituído por um pai natal pindérico pendurado nas varandas e janelas dos apartamentos. Mas é normal que assim seja. A modernidade dificilmente compreenderá o mistério e encanto do presépio. Um pai natal pendurado na varanda é uma boa e esplendorosa representação de uma atitude mais contabilística, pragmática e utilitarista do mundo.
Ser conservador não é ser politicamente reaccionário, defender as grandes injustiças do mundo, estar ao lado dos maus, ser contra qualquer tipo de mudança, mas em saber manter uma ordem eterna que não é propriedade privada de nenhuma época histórica, movimento ou ideologia. Uma ordem que não é de ninguém e que por isso não pode ser recusada a quem não pediu para não a ter.
Tenho por isso pena de não ser suficientemente conservador para conseguir fazer o presépio, apesar de saber que não é fácil sê-lo. É muito difícil ser conservador num mundo que todos os dias nos pede para sermos diferentes. Fácil, muito fácil, é ser revolucionário, aprender apenas a olhar para a frente.