07 dezembro, 2014

O MAL

Diane Arbus | 1962

Por vezes, ao ler coisas relacionadas com comportamentos aberrantes ou que, não sendo aberrantes, são de uma flagrante falta de racionalidade, gosto de tentar simular a experiência mental dessas pessoas, isto é, poder ter uma experiência mental das suas experiências mentais, tentar entender que raio de coisas estarão a acontecer na cabeça de um homem que se baba perante um garoto de 5 anos, que mata uma mulher para depois fazer sexo anal com ela, que mata por ciúmes, que tortura um bebé com água a ferver ou com um cigarro, que acredita fazer o bem quando mata centenas de inocentes num atentado, que mata para roubar 10 euros para comprar heroína ou que insulta alguém só porque tem uma cor de pele diferente.
Sei que não é possível de um modo directo (a experiência mental de A nunca é completamente reproduzível por B), mas, ainda assim gosto de tentar perceber. No fundo, uma versão psiquiátrica do problema filosófico apresentado por Thomas Nagel no célebre artigo What It Is like to Be a Bat? cuja versão portuguesa pode ser lida aqui
Para além da experiência em si, interessa-me também saber qual o grau de responsabilidade das pessoas em situações criminosas. De pessoas normais que têm a consciência do mal, do mal que poderiam não fazer mas fazem.
Não é por acaso que venho com esta conversa. Há dias, comprei dois  daqueles chocolates com avelãs da Fin Carré que se compram no Lidl, que são bons e baratos. O que estava a acontecer na minha cabeça quando tomei a decisão de os comprar, era, como sempre, a ideia de ir comendo 5 quadradinhos de cada vez durante vários dias. Porém, mal chego a casa transformo-me num animal e devoro os dois chocolates quase de seguida. Eu lutei comigo mesmo, queria parar a cada 5 quadradinhos mas, depois, voltava sempre à cozinha para ir buscar mais. Eu sabia que estava a fazer uma coisa que não queria fazer e que ninguém me obrigava a fazer. Mas que mesmo assim fazia. Razão mais do que suficiente para me olhar ao espelho, dar um par de estalos em mim próprio e perguntar a razão de tamanha incapacidade para gerir os meus impulsos mais parvos. Será que o pedófilo, o violador ou a mulher que tortura um bebé com água a ferver também o fazem? Terão conflitos interiores por causa disso? Tentarão, como eu, controlar os seus impulsos e sentir-se-ão frustrados e amargurados por não o conseguir? Poderiam não fazê-lo?
Regresso ao espelho. Quando andava na faculdade tinha colegas que roubavam livros numa livraria do Campo Grande cuja proprietária era uma simpática e prestável senhora já de uma certa idade. Eu, com pouco dinheiro, e gostando muito de livros, tentei várias vezes fazer o mesmo. Mas nunca consegui. Olhava para os livros, sabia que podia fazê-lo sem ser visto, mas nunca o fiz, embora sentisse tanto desejo pelos livros como há dias pelos quadradinhos de chocolate. Por que razão consegui sempre controlar esse desejo e vejo-me agora perante um chocolate como um pedófilo perante uma criança, um toxicodependente perante um ser humano que mata para o roubar ou um violador cegado pela testosterona que destroça uma rapariga que apenas vai sossegada para casa?
Para perceber isto preciso de dissecar os meus comportamentos em várias camadas. Há comportamentos que não consigo de todo controlar. Se for com uma chávena de chá na mão da cozinha para a sala e der um valente espirro, não consigo evitar entornar chá, sendo completamente dominado pelo movimento do meu corpo. Do mesmo modo que não posso escolher viver sem comer. Ora, a minha atitude compulsiva face ao chocolate nada tem que ver com essas situações. Sinto uma força compulsiva que me domina, é verdade, mas por que razão não a sentia perante o livro que tanto desejava possuir?
Porque são situações completamente diferentes. Enquanto a do livro apresenta um problema moral, a do chocolate só a mim diz respeito. É uma luta entre mim e mim, entre o meu espírito, que quer uma coisa, e o meu corpo, que quer outra, e em que o único prejudicado serei eu. Uma coisa é eu dizer o chavão "a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro", outra será eu dizer que a liberdade do meu espírito acaba onde começa a liberdade do meu corpo, como no caso do chocolate. Eu sou o meu espírito mas também sou o meu corpo. Estas mão que teclam sou eu, não um pedaço de carne, ossos e músculos com vida própria, dois objectos diante dos meus olhos. Perco, porque faço o que o meu espírito não quer, mas também ganho porque faço o que o meu corpo pede para fazer e o meu corpo sou eu.
Deixando o livro roubado por se poder tratar de uma falsa analogia face ao problema do chocolate, vou imaginar-me numa situação em que o peso do corpo mais se faça sentir. Acabo de sair da prisão, onde estive 5 anos. Ando pela rua meio perdido e acabo por ir parar a um parque onde, pouco depois, vai anoitecendo. Ao fundo, vejo uma mulher sentada num banco. Não é apenas uma mulher mas uma mulher fisicamente atraente. De repente, sinto-me a arder de desejo, o meu espírito mergulha num caldo quente de testosterona e sem dar conta disso transformo-me num leão esfomeado perante uma gazela carnuda. Há anos que as minhas mãos e a minha boca não sabem o que são umas mamas, já não me lembro do que é a carne morna de uma mulher, a sua pele macia, uma vagina quente. E eis tudo isso, ali de repente, à disposição do meu corpo. Não tenho ninguém, estou só no mundo e sem dinheiro para pagar a uma prostituta, Não vejo mais ninguém no parque, a mulher é fisicamente frágil e eu sou forte, por detrás do banco há uns arbustos enormes que isolam aquela parte do resto do parque, não será difícil agarrar a mulher e levá-la para lá.
Tudo no meu corpo me pede para o fazer. Mas não faço. Porém, ao contrário de mim, que apesar de estar a arder de desejo, limito-me a passar pela mulher para seguir o meu caminho, por que razão um outro a irá violar? O que há de diferente nas nossos espíritos? Acontece que, para mim, no meio daquele aglomerado de pele, carne, mamas, vagina, existe um ser humano. E um ser humano a quem reconheço direitos, direito à liberdade, à felicidade, à segurança física e psicológica. O que faz o violador? A testosterona abre os olhos para o corpo da mulher mas fecha-lhe o espírito para a pessoa que está alojada naquele corpo. O desejo descontrolado desantropomorfiza-a, desumaniza-a, dessubjectviza-a. Em suma, transforma-a num objecto. Num objecto sem alma, sem identidade, sem liberdade.
A cegueira, seja biológica, emocional, ideológica ou religiosa, transforma o violador num animal, como transformam o homem que mata a mulher por ciúme, o nazi que empurra o judeu para o vagão que o levará até à câmara de gás, o soldado que mata o soldado, o bombista que rebenta com dezenas de passageiros num autocarro, o sérvio que mata o bósnio que faz compras no mercado da terra, o toxicodependente que mata a velhinha para lhe roubar 10 euros sem precisar de se chamar Raskolnikov, o tipo que mata a prostituta para depois fazer sexo anal, a mulher que queima o bebé com água a ferver, o pedófilo que descarrega o desejo numa criança que apenas quer jogar à bola ou brincar com bonecas. Todos eles são seres humanos mas seres humanos que perderam uma consciência naturalmente feita de emoções e sentimentos, como a compaixão, a empatia, o prazer pelo prazer dos outros, o sacrifício pessoal ao serviço de outro em cuja humanidade reconhecemos a nossa própria humanidade. O que eu sentia quando olhava para a senhora de idade da livraria do Campo Grande, cujos livros eram seus.
O mal não é simplesmente uma ausência do bem, como pensava S. Agostinho. O mal é a ausência da consciência do bem por estarmos demasiado concentrados em nós próprios, esquecidos da humanidade do outro, tapada pelas nossos mais básicos interesses. Terá algum dia solução? Infelizmente, não. O homem é um animal que é racional mas também um ser racional que facilmente se transforma num animal.