03 dezembro, 2014

O ANJO DA HISTÓRIA SOPRANDO LÁ NO CÉU

Sergio Larrain | 1959

Sou absolutamente insuspeito a respeito disto. O Quixote, para mim, claro, é o melhor livro do mundo, o melhor livro de todos os tempos, o livro dos livros. É pois com tristeza que leio a notícia. Mas mais do que tristeza, é melancolia o que sinto. A melancolia da perda, melancolia induzida pela consciência da dimensão contingente, efémera e substituível de tudo o que existe, por muito importante que seja e insubstituível que pareça.
Se estivermos auto-centrados no nosso tempo histórico podemos, conforme os casos, sentir tristeza, raiva, frustração, ressentimento pelas coisas boas que se vão desprezando e esquecendo. Porque aprendemos a olhar para elas como insubstituíveis, como sendo as nossas coisas ou as coisas que também somos. Porém, se em vez de andarmos pelas florestas cerradas da história passarmos a sobrevoá-la e a ter dela uma vista aérea, vamos perceber que o nosso tempo não é mais do que o nosso tempo, um tempo que começou a existir depois de não existir e que passará a não existir depois de ter existido. 
Os cemitérios de livros estão cheios de obras que, outrora, foram consideradas eternas, insubstituíveis, incondicionalmente lidas. Obras sem as quais não era possível admitir  a existência de vida inteligente, culta e sábia. O Quixote vai para o cemitério? E daí? Será apenas mais uma entre muitas. Mas então a sua inteligência, a sua erudição, a sua mordacidade, que pareciam perenes? Afinal, a sua inteligência, erudição e mordacidade já não são as nossas. Nós queremos e precisamos de outras coisas à medida da nossa inteligência, erudição e mordacidade. E temos direitos a elas, como os outros, outrora, tiveram direito às suas. Os moinhos de vento não param de rodar e, como diria Heraclito se fosse um espanhol do século XVII em vez de grego, nunca comemos duas vezes o mesmo cereal.
Enterra-se o Quixote mas a vida continua, a Espanha continua a ser Espanha ou outra coisa qualquer, os espanhóis a serem espanhóis ou outra coisa qualquer, mas o ser humano, a ser humano, como sempre o foi e será. Sempre foi assim e assim vai continuar a ser, sendo todos nós Quixotes, vivendo os nossos sonhos e ilusões como se fossem a mais pura e objectiva realidade.
O meu continuará ali guardado e será meu até eu morrer. E esta realidade ninguém ma tira.