19 dezembro, 2014

NATAL TRANSCENDENTAL

Brassaï | Marlene, 1937

Porquê a atmosfera festiva do Natal? Por que razão toda a gente deseja a toda a gente "Boas Festas" ou "Feliz Natal"? De onde vem todo este júbilo, esta exuberância emocional?
O Natal faz parte do calendário cristão. Mas será que podemos ver nele o mesmo tipo de religiosa emotividade de milhões de muçulmanos no modo como vivem momentos simbólicos do seu calendário sagrado? Neste caso, o nascimento do menino que nasceu nas palhinhas em Belém? Coitado do menino, lá tão sossegadinho e pobezinho no meio do burrico e da vaca.
Sejamos objectivos: o que é o Natal? O Natal é um jantar e um almoço em família no dia seguinte, com troca de prendas pelo meio. Mas então é por causa disso que se deseja "Feliz Natal" a toda a gente e se anda com espírito festivo no meio da rua? Como assim, se durante o ano há sempre almoços e de jantares em família, aniversários, casamentos, baptizados ou apenas almoços e jantares de família? E prendas por isto ou aquilo também há todo o ano. Então por que razão toda a gente deseja bom Natal a toda a gente, as ruas se enchem de luzes de Natal, aumentam as acções de solidariedade, os sem abrigo passam a ser bonitos e mais cães como nós, as empresas e instituições enterram os machados laboriais e vão para restaurantes fazer jantares de Natal, enfim, toda a gente coloca uma prótese de felicidade na alma e no rosto para desejar natal a toda a gente? Só porque as famílias se juntam para jantar e almoçar no dia seguinte?
Não. No Natal não se comemora nada porque não há nada para comemorar. O que se comemora é a ideia de Natal. Natal é a ideia de Natal. Uma ideia vazia mas reguladora, uma ideia que estimula as emoções. O Natal não é nada, o Natal é gostarmos do natal. Mas é um nada que é tudo precisamente por nada ser. Nada sendo, somos livres de desejar o que seja, e que seja o que nós desejamos. Acontece com o Natal o que não pode acontecer com uma festa de aniversário ou um casamento, festas que traduzem factos objectivos e consistentes. Com as luzes do Natal também acontece o que não pode acontecer com as luzes das escadas de um prédio ou os faróis de um carro, cada uma das quais tem uma função objectiva. As luzes do Natal não "existem para", existem porque é Natal e o Natal é também haver luzes de Natal e pessoas felizes com as luzes de Natal que fazem as pessoas felizes por ser Natal. As festas natalícias, as luzes natalícias, as alegrias natalícias não têm qualquer referência empírica, não estão sujeitas à objectiva imposição da realidade. Alimentam-se apenas da ideia de Natal, uma ideia pura, formal, transcendental.
No Natal gostamos muito uns dos outros, não porque gostemos muito uns dos outros mas porque gostamos muito da ideia de gostarmos muito uns dos outros, e aproveitamos o Natal para vivermos a ideia de gostarmos muito uns dos outros. No Natal não gostamos mais da realidade e do mundo por serem mais bonitos e melhores do que nos outros dias do ano mas por acreditarmos que são mais bonitos e melhores do que nos outros dias do ano. No natal andamos todos felizes e contentes, não por sermos mais felizes e contentes mas por comemoramos a ideia de sermos felizes e contentes e de acreditarmos que somos mais felizes e contentes. E como toda a gente acredita ninguém desilude ninguém. Eu desejo "Feliz Natal" o outro deseja-me "Feliz Natal" e somos os dois felizes a desejar e a sermos desejados no Natal.
Em suma, no Natal vive-se uma utopia efémera. Mas também não vejo qualquer mal nisso. Por isso, e já que aqui estou,  desejo um feliz Natal a quem ainda vai passando por aqui para não ver as horas.