17 dezembro, 2014

MEMÓRIA PINDÁRICA

Autor desconhecido | c. 1900

Há pessoas cujos sonhos são tão vívidos que dizem sonhar a cores. Não é o meu caso e nem sequer dou importância aos meus sonhos. Mas dou importância às minhas memórias e dei comigo a pensar no que se passa com a vividez da minha memória factual, nomeadamente, perceber se recordo a cores ou p/b. Para tentar compreender, fui buscar meia dúzia de factos, uns mais afastados do que outros. Poucos, mas suficientes para perceber que a cor é uma pista errada para avaliar a vividez da minha memória.
Apesar da natureza fotográfica e até cinematográfica da minha memória, não é através do contraste entre cor e p/b que me sinto capaz de a avaliar. A minha lógica mnésica não é marcada por uma maior ou menor gradação cromática. A pista a seguir deverá ser antes o seu nível de focagem e desfocagem. E o que vejo quando revejo mentalmente as coisas são esboços difusos que se esforçam por assumir contornos reais, que pedem para ser focados mas sem conseguirem escapar do fundo desfocado onde estão submersos. Ora, isto dá origem a uma espécie de fantasmagoria associada a factos que já foram outrora reais, coloridos e focados, factos reais convertidos numa espécie de matéria gasosa, etérea, evanescente.
Por associação de ideias fui levado a pensar numa certa semelhança entre a minha memória factual e o tipo de relação que estabeleço com um texto literário. O que "vejo" quando "leio" um texto literário cheio de referências físicas e sensíveis? Não podem ser conceitos puros que povoam a minha cabeça tal como acontece quando leio um texto filosófico. Mas também não são imagens puras expostas diante dos meus olhos como este monitor ou o prédio que vejo pela janela. Por exemplo, no livro que estou a ler encontro a seguinte frase:

«Tanto o dono da casa como o hóspede comiam com grande apetite»

O que acontece na minha cabeça quando leio isto? Eu não estou a ver duas pessoas a comer como se estivesse num restaurante a olhar para uma mesa onde estão duas pessoas a comer. Nem estou a ver num filme duas pessoas a comer. Nem numa fotografia. Eu não estou a ver, estou a ler. Sobre coisas que são visíveis, que convocam o instinto da visão mas que não vejo. Nem sequer tenho tempo durante a leitura para me esforçar por "ver" o que leio. Ora, isto faz com que as palavras, embora remetam para o visível, adquiram um valor mais formal ou conceptual. Mas também não é o tipo de formalização que ocorre quando leio o Imperativo Categórico ou o Teorema de Pitágoras. O que acontece é qualquer coisa de sincrético, confuso, híbrido, fantasmagórica, imagens transformando-se em conceitos, conceitos que pedem para ser imagem.
Quando eu tinha 12 ou 13 anos, compraram-me uma colecção de clássicos da literatura. Como era destinada a um público juvenil, iam aparecendo lá pelo meio algumas ilustrações relativas a uma ou outra passagem do livro a qual voltava a surgir como legenda por baixo da imagem que a traduzia visualmente. Lembro-me de estar sempre à espera que elas surgissem a fim de poder confrontá-las com a representação mental que eu tinha construído através da leitura. O exercício era engraçado. Sobretudo porque apesar das ilustrações serem fiéis e realistas estavam longe de reproduzir o que eu tinha em mente. E que tinha eu em mente? O que continuo a formar ainda hoje sempre que leio um texto literário: conceitos que pedem para ser imagens bem focadas mas que logo se desfocam em função da sua condição formal de conceitos.
Ora, com a minha memória acontece o mesmo. Lembrar-me de factos passados é como estar a ler um livro, iniciando uma reconstrução mnésica feita de imagens mas imagens cujo peso formal desfoca substancialmente o seu impacto sensível. Pôr-me a pensar no meu primeiro dia de escola é como estar a ler um livro cujo escritor descreve o primeiro dia de escola de uma criança. Pensar no dia em que fui operado a um pulmão há 30 anos é como estar a ler uma descrição literária disso. Sou eu mas é como se fosse um outro, uma personagem que me é dada por um narrador não participante, se bem que tudo isto ocorra neste lugar por vezes obscuro que é a minha consciência.
Claro que o grau de vividez não é o mesmo. As minhas imagens serão sempre mais vívidas e reais do que as imagens que construo arbitrariamente quando leio um livro. A minha escola primária era mesmo aquela escola primária e não um conceito de escola primária em esforço para adquirir visibilidade. Ainda assim, imagens muito longe da sua natural focagem a olho nu.
Eu raramente me lembro dos sonhos. Mas os mecanismos da minha memória factual não andam muito longe do que vejo quando tento reconstruir um sonho. Sim, tudo o que vivo tende a transformar-se em sonho desfocado, tudo o que vivo se dissolve no ar. Imagens que se dissolvem em conceitos, conceitos que se dissolvem em imagens só pode dar dissolução. Bolhas que aumentam para logo rebentar. Que raio de coisa mais pindárica, a minha memória.