04 dezembro, 2014

MARTIN HEIDEGGER EXPLICADO PELAS CRIANÇAS


Sou professor de Filosofia mas este ano puseram-me também a dar apoio ao 5ºano, ou seja, a umas miniaturas que guincham, pulam e se empurram de tal modo que parecem estar mais perto do reino da selva do que da espécie popularmente conhecida como racional. Explicou-me o director que a ideia não é apoiá-los a Português, História ou Ciências, mas ajudá-los a pensar. E como eu sou um funcionário zeloso (não confundir com zelota) lá fui eu como o Levi Strauss a ir para a Amazónia, mas atendendo às ressonâncias zoológicas da situação, tão curioso e expectante como Darwin ao sair do Beagle para pisar o solo das Galápagos.
Na última aula, resolvi levá-los a pensar sobre o significado de sorte e de azar. Pedi então que me dessem exemplos de situações relacionadas com as duas. E como para além de guinchar também conseguem produzir discurso articulado, lá os foram dando, e, juro, com razoável pertinência, provando-se assim que seres minúsculos que guincham, pulam e se empurram podem ter vida mental mais complexa do que um gafanhoto ou um berbigão.
Entretanto, um deles dá como exemplo de azar, a morte. Morrer é  um bom exemplo de azar, afirmou, com o ar de quem diz a coisa mais óbvia do mundo. Fiquei estarrecido! Meu deus, a morte. Eu perante fedelhos minúsculos a enfrentar o terrível problema da morte. Sei que fui incumbido de os pôr a pensar, a reflectir, mas a morte? A morte?!
Por onde começar. Com o Fédon, de Platão? Os estóicos gregos e romanos? Pascal? Heidegger? Não, nem pensar, resolvendo não sair do chão terreno das evidências mais comuns. Expliquei então que a morte não é uma questão de azar, uma vez que já sabemos antecipadamente que um dia irá acontecer. Tal como não é azar termos de beber água para sobreviver ou não é azar não conseguirmos voar ou não respirar debaixo de água. Se tudo o que nasce e vive irá um dia morrer, não é pois correcto dizer que se trate de azar. Mesmo assim resolvi complicar, dizendo que morrer pode ser azar se resultar de um conjunto de acasos que façam com que uma pessoa morra inesperadamente, sem nada ter feito para isso. Por exemplo, ir tranquilamente de casa para o trabalho pelo passeio e cai-lhe em cima da cabeça um vaso de flores de um 4º andar e morre. Isso, sim, bolas, é azar, filosofei. Mas se alguém vai a conduzir um carro a uma bruta velocidade e ultrapassa um outro numa curva, chocando de frente com um camião e morre, já não é azar. Pode ser aborrecido, mas azar é que não foi.
Mas o meu esforço e muitos anos de prática pedagógica foram em vão. O garoto, com um sorriso escarninho e com aquele ar de que esgotou a paciência para me ouvir, disse que morrer nada tinha que ver com isso. Morrer é morrer num jogo de computador. E eu vim de lá a pensar que se num jogo de computador o jogador estará sempre condenado a morrer, o ser-para-a-morte de Heidegger irá continuar a ser a nossa marca ontológica, por mais tecnologicamente sofisticado e inumano que seja o mundo.