06 dezembro, 2014

KANT ALENTEJANO EM ÉVORA


É verdade que a Filosofia não é uma ciência. Ou que não tem aquele tipo de utilidade que permite inventar coisas como máquinas agrícolas, electrodomésticos, antibióticos, analgésicos, automóveis, programas informáticos, quebra-nozes ou abre-latas. Mas servirá sempre para ajudar a pensar. E pensar é bom, sobretudo perante as aparências, falácias e banalidades do senso comum, e ainda mais quando vêm embrulhadas num fino recorte de solenidade. O que  nos pode dizer a filosofia, por exemplo, perante declarações como esta, onde se elogia a «força interior» ou a «determinação» de um homem, qualidades sem dúvida inegáveis?
Desta vez, vou até à minha mesa de pé de galo para chamar o espírito de Kant. Diz ele, numa obra chamada Fundamentação da Metafísica dos Costumes (sim, que raio de nome), que qualidades como a inteligência, capacidade de decisão, perseverança, coragem, sangue-frio, podem ser boas e desejáveis. O sangue-frio de um bombeiro é decisivo para salvar uma criança dentro de uma casa a arder. E a perseverança de alguém cuja obra vai contribuir para a felicidade de muitos é um bem inestimável. Mas o que dizer desse mesmo sangue-frio num assassino? E do espírito de perseverança de um tirano que sonha com um projecto que levará ao sofrimento de milhões de pessoas? E da inteligência de uma pessoa quando ao serviço do mal?
O que Kant quer dizer é que coisas como a inteligência, a coragem ou a perseverança são boas, mas não incondicionalmente. Depende. No fundo, podem não passar de meras inclinações ao serviço dos interesses egoístas ou de uma felicidade e prazer individual, construídos à custa de um desrespeito moral  pelos outros. Ora, quando assim é, são de fugir.
Claro que somos sensíveis e não deixamos de amanteigar o coração ao saber que alguém que está preso revela força interior e determinação em lutar pela sua inocência. Somos humanos e há coisas que caem sempre bem. Mas determinação em lutar pela sua inocência significa apenas determinação em lutar pela sua inocência. Força interior significa apenas força interior. Nada mais do que isso.
Daí não devermos amanteigar demasiado o coração quando ouvimos coisas destas da boca de alguém que, como tantos outros, acredita, naturalmente, repito, naturalmente, na inocência do amigo, sendo conveniente lembrar que a naturalidade desta crença tem tanto de inclinação (no sentido kantiano) como a força interior ou a determinação do visado.
E, já agora, há uma coisa que o meu pobre entendimento teima em não conseguir compreender. Se é grave assumir a culpa de alguém que ainda não foi julgado, por que razão se aceita com naturalidade, e nas mesmas circunstâncias, a sua inocência? Claro que é legítimo o desejo de acreditar na inocência do amigo. Mas, de um ponto de vista epistémico, por que valerá mais a crença em acreditar na inocência do amigo do que a crença em acreditar na culpa do inimigo? Ambas são naturais inclinações cujo valor é idêntico.
Claro que, juridicamente, todo o réu é inocente até prova em contrário. Mas a crença na inocência do amigo ou o elogio das qualidades psicológicas do amigo, estão fora do campo da formalidade jurídica. São actos de fé e nada mais do que isso. Aos quais, assim como ao conteúdos enaltecidos nos mesmos, a Filosofia deve dar o valor que merecem.