10 dezembro, 2014

JE VOUS SALUE, GABRIEL



«A dança foi a primeira forma de oração; uma oração rezada ainda pelo corpo». Teixeira de Pascoaes, A Ponte, LXXXV, in O Bailado

Graças a ser feriado, os católicos portugueses puderam, anteontem, entregar-se espiritualmente ao mistério da Imaculada Conceição e à experiência do sagrado a ele associado. Eu, homem sem fé, fiquei condenado a passar o dia a corrigir profaníssimos testes. Para descansar um bocadinho resolvi dedicar uns minutinhos a qualquer coisa relacionada com a data. À igreja não vou, rezar não sei. Dediquei então um bocadinho do meu tempo, até para ajudar a limpar os olhos e o espírito dos testes, a observar diferentes versões da Anunciação e decidir de qual iria gostar mais. Não fiquei católico por isso mas pelo menos justifiquei a Graça do feriado com uns minutinhos dedicados ao simbolismo do dia, em vez de ir para o centro comercial ver montras e andar a tropeçar em centenas de católicos, prática universal embora pouco apostólica, e romana, só se for nas lojas da Cidade Eterna.
And the winner is... Botticelli! Não foi fácil. O tema, literalmente fantástico, contribui para muitas obras de qualidade e merecedoras de apreciação. Mas esta é diferente. Porque? Porque Maria não é apresentada, como é habitual, numa atitude mais ou menos passiva, expectante, simples receptáculo de uma vida para a qual não foi tida nem achada. Recordemos o momento tal como foi, descrito por Lucas, o único evangelista que sabe o que aconteceu naquele mágico e inquietante dia. Mateus fica-se apenas pelo sonho de José, a Marcos e João só lhes interessa o homem, não o modo como tudo começou:

Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salvé, ó cheia de graça, o Senhor está contigo». Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquirida de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Não tenhais receio, Maria,  pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. [...] Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-se filho de Deus. [...] Maria disse então:«Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» E o anjo retirou-se de junto dela. Lc,1, 26 ss

 Nesta versão de Veronese assistimos a uma cena profundamente dramática e que mostra bem a perturbação referida por Lucas. Há nela uma emoção quase cinematográfica: um anjo, ainda esvoaçante, apanha uma Maria apanhada de surpresa e que não ganha para o susto. Olhamos para ela e quase ouvimos o seu gritinho agudo ao virar-se de repente, talvez por pressentir o bater de asas do alado visitante. O anjo surge claramente como um intruso e a reacção de Maria não é muito diferente da que teria no caso de se tratar de um indesejável assaltante.
Nesta, de Angelico, bem mais tranquila, vemos o anjo, pedagógico, explicar a Maria o seu divino desígnio tal como é relatado por Lucas. Percebe-se a perplexidade dela, nota-se que ainda não caiu em si, o seu esforço para tentar compreender e o esforço do anjo para explicar. Ele, para ser mais expressivo, leva as mãos à barriga, e ela imita-o para se poder convencer de que não se trata de um sonho.
Na de Leonardo temos uma visão do momento muita parecida com a anterior, mas com uma Maria intelectualizada e que parece querer igualar o estatuto superior do anjo. Não fossem as asas do anjo vistas e poderíamos confundi-los, ficar sem saber quem é o anjo e quem é Maria. Ainda assim, continua sentada onde já estava antes da visitação, como se já estivesse à sua espera, estando cada um no seu lugar próprio tal como os corpos na Física aristotélica. Ele, corpo celeste, que chega vindo do céu, ela, corpo terrestre, em repouso no seu mundo doméstico.
Finalmente, a de Botticelli. Um anjo e uma virgem. É uma Anunciação, claro, uma hierofania, o sagrado que desce ao profano, as suas naturezas não se confundem: o anjo é alado, a virgem, como qualquer ser humano ou corpo em geral, está sujeita, para além da gravidez, embora de uma etérea gravidez, ao inexorável peso da gravidade. Porém, a maneirista elegância dos corpos, cuja cereja é o jogo das mãos, no modo como se enfrentam, como dialogam, torna-os pares de um bailado renascentista embora pudesse ser com a canção do Moustaki.
Maria, a humana cujo ventre irá gerar o filho de Deus, não está ali, hirta e impávida após a eruptiva, embora doce e amena, chegada do anjo. Não parece haver emissor e receptor, nem parece esforçar-se para descodificar a mensagem celeste.  Pelo contrário, entra no jogo do anjo, os seus corpos dialogam harmoniosamente numa dança de movimentos estudados e simétricos, o que é acentuado por uma imaginária linha diagonal que vai da parte posterior do manto do anjo à auréola da futura mãe. O anjo desce à Terra mas depois, ajoelhado, é  ele que sobe a Maria cuja verticalidade a torna num centro que não é apenas antropológico mas também feminino.
De todas as Anunciações esta é aquela onde o mistério menos se faz sentir. Maria concebe sem pecado, a sua carne permanece imaculada mas a sensualidade do seu corpo e dos seus gestos, eleva-a acima de um inesperado destino que não escolheu. Maria acolhe o Espírito Santo mas recusa-se a ser apenas uma intermediária entre o sobrenatural e o natural. Intermediários são os anjos. Maria é uma mulher, vai ser mãe, mas não assume aqui o papel de uma mãe meramente funcional. Acolhe o Espírito Santo mas para o transformar em música, a música que a leva a movimentar sensualmente o corpo enquanto dança com o anjo.
Daí a sua modernidade. Eu não sou obcecado pelo moderno, não vejo o moderno como um valor em si mesmo. Mas gosto da modernidade desta Maria de Botticelli, pintada e animada por ele com a mesma alegria e jovialidade e sensual encanto como que pinta as ninfas da Primavera ou o Nascimento de Vénus. Maria não concebe em pecado, a sua concepção é imaculada mas Botticelli retira-lhe a mera, ainda que sobrenatural, funcionalidade uterina, para lhe oferecer uma feminilidade que não serve apenas para dar luz, ou torná-la cativa de um milagre onde não foi tida nem achada, mas ser ela própria uma luz que irradia sobre os olhares humanos. Uma escrava do Senhor mas uma Mulher para os homens.