31 dezembro, 2014

DOIS MIL E QUINZES

Joseph Koudelka | Praga, 1968

Por que razão desejamos "bom ano" uns aos outros? Um ano não é uma gaveta que possa ficar identificada com uma etiqueta geral que determine a sua qualidade. Como se estivéssemos a falar de vinhos. Com o vinho faz todo o sentido, pois as condições meteorológicas condicionam a qualidade do vinho produzido num dado ano. Por isso dizemos que o vinho X de 2009 é melhor do que o mesmo vinho de 2010. Só que nós não somos uvas nem maçãs nem melões.
O que pode significar para nós, um bom ou mau ano, se um ano é composto por meses, que são compostos por semanas, que são compostas por dias, que são compostos por horas, que são compostos por minutos? Ora, quando dizemos um "bom ano" ou "mau ano" estamos a pressupor um quadro mental virtual, concentrado e homogéneo, sobreposto à real textura dos factos, que é dispersa e heterogénea. Tal como o conceito de espaço na história de Aquiles e da Tartaruga explicada por Zenão de Eleia, também o tempo pode ser dividido em parcelas cada vez mais pequenas. Quando no dia 25 de Maio de 1984 demos uma gargalhada numa sala de cinema, a unidade temporal dessa gargalhada não é o ano de 1984, nem o mês de Maio, nem sequer o período de tempo entre as 17.05 e as 19.30 em que estivemos a ver o filme. Se a gargalhada teve uma duração de 6 segundos durante o 25º minuto do filme, são esses 6 segundos que devem ser considerados reais ao fazermos a contabilidade temporal da gargalhada, e não o ano de 1984, no qual a gargalhada foi dada. Também se nos perguntarem onde vivemos, não vamos dizer que é na Europa ou na Península Ibérica mas em Portugal ou, melhor ainda, em Serpa, Viseu ou Montalegre. Por isso não vamos dizer que 1984 foi bom porque demos uma gargalhada, embora seja bom dar gargalhadas, do mesmo modo que não vamos dizer que foi mau porque num dos seus 365 dias entalámos o dedo numa porta, embora seja péssimo andar a entalar dedos em portas.
E é precisamente nesta estrutura atómica de quase 9000 horas anuais que vivemos, que estamos alegres ou tristes, mais felizes ou infelizes, com a vida a correr melhor ou pior. Por isso, o que significa um ano bom ou um ano mau? Um ano é feito de milhares de vivências que dão origem a inúmeras emoções, sentimentos e outros processos mentais. Tudo isso marcado pela dispersão e uma desordem que não é passível de ser arrumada numa gaveta temporal: 2013, 2014, 2015.
Claro que dividir a vida em anos como forma de catalogar a nossa existência, dá uma ilusão de arrumação, de ordem, de racionalidade. Mas não passa disso mesmo: uma ilusão. O que acontece ao longo de um ano é demasiado disperso e heterogéneo para poder ficar preso à platónica abstracção formal de uma etiqueta.
Mas pronto, mesmo assim, um bom ano.