14 dezembro, 2014

CUECAS ATÉ À GARGANTA


Dizia, há tempos, o escritor Lobo Antunes ao Ipsílon, que tem uma péssima memória pois lembra-se de tudo. Sendo assim, posso então dizer que tenho uma excelente memória uma vez que me esqueço de toneladas de coisas. Mas também há muitas das quais era suposto eu esquecer-me mas que são lapas agarradas à minha memória e que nenhuma forte onda de esquecimento consegue descolar.
Há mais de 30 anos, estava a passar umas longas férias na Alemanha e fui passar uns dias em casa de uns amigos alemães. Uma tarde estávamos sentados no jardim e um fedelho ainda do secundário começou a querer saber palavras em português, não apenas o grande clássico que são as asneiras, mas muitas outras sem qualquer critério. Uma delas foi cuecas. O rapaz quis saber como se dizia cuecas em português. Quando então lhe digo a palavra o rapaz quase que se atira para o chão a rir. "CUECAS!"AHAHAHAHAHAH, "CUECAS!"UHUHUHUHUHUH, "CUECAS? OH MEIN GOTT, ES IST SO UNGLAUBLICH, CUECAS, CUECAS CUECAS!". E andou nisto todo o tempo que lá passei. Estávamos à mesa a jantar e de repente:"CU-E-CAS, AHAHAHAHAHAH". Eu ia descansadinho no corredor, ele passava por mim: "CU-E-CAS? CU-E-CAS? UHHHHHHHH, CUUUEEEECAAAS".
Fosse hoje e veria isto como manifestação chauvinista e pan-germânica, uma humilhação protestante a um forasteiro do lânguido e pobre sul da Europa que faria actualmente o velho Tácito virar o mapa da Europa ao contrário para me chamar bárbaro. Nesse fatídico dia por causa de um fedelho alemão, fui obrigado a descentrar semanticamente a palavra para me concentrar no seu elemento significante, neste caso, fonético, cujo efeito cómico é evidente. Nunca mais voltei a dizer e ouvir a palavra cuecas da mesma maneira. Ainda hoje, sempre que a digo, não consigo evitar uma sensação estranha, cómica e vil ao mesmo tempo. Será que num jantar formal, assim no meio de pessoas importantes, eu poderia dizer a palavra "cuecas"? Sinceramente, acho que me iria fazer uma hipercorrecção, acabando por dizer roupa interior ou boxers, embora se trate exactamente da mesma peça de roupa. Angústia, aliás, que já havia aflorado aqui, se bem que por razões morais e não fonéticas. Mas será isto correcto?
Há tempos o meu filho veio ter comigo ao quarto para me pedir "uns boxers emprestados". Eu estou tão habituado a ouvir boxers por tudo e por nada que nem liguei. Porém, hoje, ao ler o Correio da Manhã e dar com esta notícia, fui de novo inquietado com a minha angústia das cuecas. Repare-se nas gordas: "A IRINA GOSTA DE ME ROUBAR OS BOXERS". Só que, por baixo da fotografia, com letrinhas pequenas, lê-se "Irina já tinha feito uma produção com as cuecas do namorado". E logo mais abaixo que encontrou a sua roupa interior no armário dela. A desorientação e fragmentação esquizofrénica disto é por demais evidente. Se o próprio Correio da Manhã, jornal habituadíssimo a usar as suas capas para mostrar gente apenas com essa peça de roupa, fica confuso, dividido, indeciso, como é que eu não eu hei-de ficar?
Mas já decidi como ficar. Vou gerir este problema do mesmo modo que geri o problema das filas e das bichas. Já fiz rir alunos na sala de aula por dizer a palavra "bicha", por exemplo, estar na bicha do supermercado. Risos que me levaram de volta à Alemanha dos anos 80, só que, neste caso, não por razões fonéticas mas de puro e duro significado, por causa do seu uso brasileiro. Como não gosto de que se riam na minha cara, e tendo a consciência do impacto que a palavra tinha passado a adquirir, passei a hipercorrigir-me e a dizer "fila". Porém, confesso, nunca gostei por sentir que me estava a vender. E tanto assim foi que disse a mim mesmo que não queria saber, e que em português de Portugal uma bicha é uma bicha e não um homem que gosta de outros homens e ponto final. 
Decidi fazer o mesmo com cuecas. Não quero saber. Como diria a escritora Gertrude Stein, cuecas são cuecas são cuecas são cuecas. Não lhe quero chamar roupa interior pois isso também pode ser um soutien, bodies ou uma combinação e eu não uso soutien nem bodies nem combinação, e no caso desta última, infelizmente, também já não as mulheres. E boxers também não me agrada. Claro que há o problema técnico de distinguir as cuecas que o meu avô e o meu pai usavam e as cuecas que agora se se usam, e isso ser aproveitado por muita gente pindérica para justificar a palavra boxers. Mas uma 4L também não tem nada que ver com um Mercedes e são ambos carros. E tanto uma saia curta, como comprida, são saias. E um casaco é um casaco seja qual for. De um ponto de vista ontológico, tanto o que eu meu avô e pai usavam como o que os garotos agora usam, são cuecas. E não são os actuais fedelhos que me irão impor a sua nomenclatura. O meu avô e o meu pai nasceram e viveram primeiro e, em homenagem a eles, irei, linguisticamente falando, continuar a usar cuecas iguais às deles.