13 dezembro, 2014

BELEZA RENASCIDA


No filme de Carol Reed, The Third Man, alguém pergunta a um assassino e traficante de droga como pode ser tão mau. Resposta dele: A Itália dos Bórgias teve derramamento de sangue, terror, assassínios, mas deu-nos Miguel Ângelo, Leonardo, enfim, o Renascimento. A Suíça, com 500 anos de paz e democracia, produziu o relógio de cuco.
O assassino tem, empiricamente, razão. Factos são factos. Mais: Maquiavel tem razão quando fala na impossibilidade de conciliar certos valores contraditórios, se bem que ambos positivos, como a humildade cristã e a ambição romana. Quer dizer, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. E se em vez do Renascimento Italiano com as suas poderosas famílias, reinos, ducados e repúblicas obcecados com o poder, a vaidade, ambição e o prestígio, tivéssemos o prolongamento de uma Idade Média profundamente cristã e dominada por ordens mendicantes, não teria existido o esplendor material e artístico do Renascimento que faz hoje os encantos seja de estetas, seja de turistas com telemóvel na mão para romanas, venezianas e florentinas selfies.
Mas é escandalosamente falacioso vir falar de uma relação causal entre fome de poder, vaidade, ambição desenfreada, e produção de beleza, como se se tratasse do mesmo tipo de relação causal existente entre a força da gravidade e a queda de uma maçã. A relação entre as máculas renascentistas e a beleza foi, como entra pelos olhos dentro, uma relação possível. Mas também entra pelos olhos dentro que não é uma relação necessária. Há que saber usar os olhos mas não deixar a cabeça ser enganada por eles, pois a experiência tanto pode mostrar uma coisa como a sua contrária.
Quantas obras de arte consideradas das mais belas, foram produzidas longe de um contexto como o que descreve o assassino do filme? Quantas obras de arte, seja na pintura, na literatura, na música, foram produzidas por artistas pobres e sem mecenas? E quanta beleza foi produzida sem o cheiro do sangue? Vermeer, Monet ou Chagal, a música de Satie e Ravel ou os romances de Eça, não são o produto de pecados e vis fraquezas humanas.
Se eu disser "1. Se chover, o chão fica molhado; 2. Choveu", terei de forçosamente concluir que (3) "O chão fica molhado". Mas se eu disser "1. Se chover, o chão fica molhado; 2. O chão está molhado", não estou autorizado a concluir que (3) "Choveu". A relação causal entre Renascimento e beleza pode ser vista da mesma maneira, isto é, ambição e poder podem estar na origem da beleza mas isso não implica que a beleza deva necessariamente a sua origem à ambição e poder, neste caso, de um Renascimento sangrento, ou de qualquer coisa sangrenta em geral, seja uma época ou um regime. E se é verdade que a beleza não depende de qualquer coisa sangrenta também não o será menos o facto de uma época ou regime sangrento não terem de produzir beleza. E mesmo mostrando a experiência o que mostra, tal não implica que tivesse necessariamente de mostrar, uma vez que o que aconteceu poderia não ter acontecido.
Os modos da beleza se exprimir são múltiplos. O sangrento Renascimento Italiano foi apenas um deles. Mas há muita beleza para além do Renascimento Italiano, a beleza jamais poderia estar dependente de um qualquer Renascimento Italiano. A procura da beleza é um processo natural do ser humano, seja na Itália renascentista com os seus palácios, praças, esculturas ou pinturas, seja numa aldeia africana onde se esculpe a madeira no tranquilo silêncio de um pôr de sol.
A beleza é como a Fénix. Os séculos pulam e avançam, os regimes erguem-se e caem, mas a beleza renasce sempre das cinzas da história, por muito diferentes que sejam as carbonizadas matérias de onde vêm.