28 dezembro, 2014

AIR LIFE

Amanda Boe |San Francisco, 2012

De manhã, estava sossegadinho na cama a ler quando recebo um sms do Sapo News a informar-me do desaparecimento de um avião da Air Asia com 161 pessoas a bordo. De imediato pensei neste dramático e desequilibrado número. Eu teria preferido que fossem 160, ou até mesmo 170 ou 180, em vez de 161. É normal, nós gostamos de números redondos, de datas redondas e também com os mortos os números redondos resultam melhor. Soaria melhor 160 do que 161 e creio que pode ter que ver com a maneira com os nossos hemisférios direito e esquerdo do córtex cerebral se harmonizam para processar a informação, à semelhança da ordem e harmonia que procuramos activamente ao nível da percepção visual.
Horas mais tarde, vou à Internet e informa-me de novo o Sapo do acidente mas, desta vez, para me dizer que foram 162 pessoas em vez das 161 da notícia anterior. Continua a não ser um número agradavelmente redondo mas já se trata de um número par, e eu acho que os números pares resultam melhor do que os ímpares, apesar de Deus, que é a suma perfeição, ser composto por três pessoas. No meu imaginário, tantas vezes infantil, talvez seja a harmoniosa ordem binária de Noé a sobrepor-se à demasiada intelectual complexidade teológica da Trindade Divina ou do triângulo pitagórico.
No que resta da minha pobre cabeça, há uma ideia de completude, fechamento e harmonia geométrica num número par, que não consigo encontrar num ímpar. Eu olho para os números 3, 17, 99 ou 121 e sinto uma qualquer desproporção, uma falta, assim como uma pessoa sem uma orelha ou um piano só com teclas pretas. Pelo contráro, se olhar para o número 2, 16 54 ou 98, sinto-me apaziguado, uma serenidade ontológica-matemática que lembra o equilíbrio formal da música de Bach.
Mas se for um número redondo, melhor ainda. Graças a esse redondo zero, um zero pleno de si próprio, imaculado, a lembrar a suave e voluptuosa esfera de Parménides em contraste com o irritante, anguloso, esquinado triângulo de Pitágoras ou a irritante Trindade divina na qual para duas das suas três pessoas dançarem o tango há sempre uma que fica de fora. Daí eu preferir que a notícia do Sapo me tivesse falado em 160, 170 ou 180 pessoas, em vez de 162 pessoas ou ainda mais irritantes 161 pessoas.
Mais inquieto fiquei quando o mesmo Sapo me informa de que o papa Francisco já havia rezado pelos 161 (ou 162?) passageiros do avião e de uns navios no mar Adriático:

“O meu pensamento vai para os passageiros do avião da Air Asia, desaparecido na viagem entre a Indonésia e Singapura, e também para os passageiros dos navios que, nas últimas horas, estiveram envolvidos em incidentes no Mar Adriático”, assinalou.

Mais consensualmente do que noutras realidades assaz mais complexas, relativas e subjectivas, na morte, o tamanho importa mesmo.
Neste momento, em Portugal, na zona de Amarante, vai um homem em cima de uma mota, despista-se, vai contra uma árvore e morre. Este poderia ser apenas um dos muitos e muitos milhares de pessoas que morrem todos os dias, e todos os dias sem excepção, no mundo inteiro. Que neste exacto momento estão a morrer e que vão continuar a morrer ao longo dos dias de todos os dias. Mas morrem individualmente. Não confortadas com a almofada do 161 ou 162, mas uma morte única e pobre. A pobreza do número 1, a insuficiência do número 1,  a invisibilidade do número 1. Um 1 que é tudo mas que não é nada, encerrado na sua própria e única finitude. E  mesmo que já sejam 10 ou 20 pessoas, não é a mesma coisa do que 161 ou 162 pessoas, as quais, se estiverem arrumadas no antropológico e ético conceito de "passageiro a bordo" ganham ainda maior relevância. Uma pessoa não é notícia (ou melhor, depende da pessoa), 10 ou 20 já será uma notícia mas 161 ou 162 já será uma grande notícia, embora no caso de serem 163, 184 ou 196 fosse precisamente a mesma notícia.
Se eu acreditasse em Deus, iria pedir-lhe que a minha hora chegasse com o estatuto de passageiro a bordo num acidente aéreo onde morressem 161 ou 162 pessoas, ultrapassando assim os muitos milhares de pessoas que morrerão no mesmo dia, que morreram no dia anterior e que irão morrer no dia seguinte ao meu.
Resta-me apenas saber quantos dos mortos da Air Asia, eram crianças, mulheres grávidas, casais em lua de mel ou pessoas importantes da ciência, da política e das artes. Tal como o tamanho, isso também faz toda a diferença.