01 dezembro, 2014

A VONTADE DA VONTADE

Al Moutasim Al Maskery | 2012

É sempre um bocadinho complicado explicar a garotos de 15 anos o filosófico conceito de «vontade» quando se trata de introduzir o problema do livre-arbítrio, isto é, o problema de sabermos se existe a possibilidade de tomarmos livremente as nossas decisões, de agirmos livremente. Complicado, uma vez que estão habituados a associar a ideia de vontade à psicológica ideia de desejo ou necessidade. A situações como «Estou com vontade de ir à casa de banho», «Estou cá com uma vontadinha de comer uma açorda de marisco», «Vontade de fazer uma viagem».
«Vontade», neste sentido, remete para a percepção interna de um estado de necessidade física ou psicológica, pedindo um acto que permita a sua satisfação. Ter vontade de comer uma açorda marisco é sentir o desejo de a comer, o qual pede a acção de a comer; ter vontade de ir à casa de banho é sentir a necessidade de ir à casa de banho a qual pede a acção que permita pôr fim a essa necessidade.
Mas falar de «vontade» em Filosofia é muito diferente desse sentido habitual. Já não se trata de uma percepção, de um estado, de um sentimento ou emoção, mas de uma faculdade. A vontade é uma faculdade. Faculdade no sentido em que também a inteligência, a memória ou a visão o são. Neste caso, a faculdade que permite escolher uma entre várias possibilidades, dando assim origem a uma acção livre ou VOLUNTÁRIA (de voluntas = vontade).
Por exemplo, entramos numa festa e de um lado temos uma mesa com doces, do outro uma mesa com salgados. A vontade é a faculdade que supostamente nos permite escolher livremente ir para a mesa dos doces ou para a mesa dos salgados. A faculdade que permite a possibilidade de, voluntariamente, mentir ou não mentir, de, voluntariamente, roubar ou não roubar, de, voluntariamente, dar ou não um beijo, de, voluntariamente, acreditar ou não na inocência de José Sócrates, de, voluntariamente, num cinema onde existem 10 salas com diferentes filmes, decidirmos ver o filme X em vez do filme Y ou do filme Z.
O que se torna ingrato no meio de tudo isto é eu ter o trabalho de explicar aos alunos que o segundo sentido de vontade nada tem que ver com o primeiro mas, acabada a aula, pensar que o segundo sentido de vontade tem tudo, tudo, mas mesmo tudo, que ver com o primeiro. E que a liberdade de escolha consubstanciada no segundo sentido não passa de uma expressão dos domínios mais obscuros, imponderáveis e involuntários do primeiro sentido.
Claro que não lhes digo nada.  A Filosofia existe para os pôr a pensar mas não convém exagerar.