02 dezembro, 2014

A COZINHA

Gilbert Garcin | Flashback, 2001

Quando eu morrer e entrar no céu, tenho a certeza de que não irei estranhar o lugar. Será certamente um lugar familiar pois é no céu que me sinto sempre que entro na minha cozinha. Tudo na minha cozinha é branco. Chão branco, paredes brancas, mesa e cadeiras brancas, armários brancos, electrodomésticos brancos, cortina da janela branca e até o raio do lava-loiças é branco. Só me faltam umas asinhas a dar a dar enquanto tiro um iogurte do frigorífico,  para me sentir verdadeiramente uma entidade celeste.
Não é nada fácil a relação com uma cozinha branca. Pelo facto de ser branca estou constantemente a ver sujidade que jamais veria fosse tudo mais escuro. Este é o lado mau da coisa: ter uma cozinha branca significa ter a percepção de que nunca estará completamente limpa, seja por causa de uma minúscula parte de uma folhinha de salsa colada ao chão, por um resto de gordura numa parte do lava-loiças, uma mancha no fogão ou uma dedada na porta de um armário. A sujidade será sempre a mesma, seja numa cozinha branca, seja numa cozinha mais escura. O que muda é a nossa perspectiva da sujidade mediante a capacidade que temos para a ver. E se a vemos podemos então limpá-la e cuidar o mais possível dela, apesar do trabalho que dá.
Também com as pessoas se passa o mesmo em relação aos seus sentimentos morais. Há pessoas que são cozinhas brancas, sempre atentas aos seus actos e ao que de sujo poderá advir deles. Outras, pelo contrário, são cozinhas escuras. A cozinha pode estar imunda mas passam pelas suas imundícies sem reparar nelas.
A minha cozinha branca dá-me, na verdade, muito trabalho para se poder apresentar com alguma dignidade e poder lá entrar sem sentir vergonha dela. E nunca, mas mesmo nunca, sinto inveja das pessoas que cozinham e comem em cozinhas que metem nojo mas, porque a sujidade está escondida, disfarçada ou simplesmente esquecida, vivem nelas e falam delas como se estivessem em condições de poder lamber o chão.