13 novembro, 2014

SISMOLOGIA POLÍTICA

Margaret Bourke-White, 1937

Foram absolvidos os cientistas responsabilizados pela morte de centenas de pessoas, há cinco anos, num sismo em Itália, tendo o tribunal concluído não ter a ciência capacidade para poder prever o fenómeno.
Isto lembrou-me uma coisa dita por Agostinho da Silva numa entrevista, pouco tempo antes da sua morte. Dizia ele que do mesmo modo que um cientista não pode ser acusado de nada poder fazer nas placas tectónicas de modo a evitar futuros sismos, os problemas do país são de tal modo complexos que acabam por transcender a capacidade para os resolver, não podendo os políticos ser responsabilizados pela sua incapacidade.
A analogia é engraçada mas é de uma enorme ingenuidade. Os nossos políticos não são agentes falhados por não conseguirem resolver os problemas do país. Bem pelo contrário, o seu sucesso é inegável, já que o seu objectivo é precisamente não conseguir resolver os problemas do país. Pois enquanto conseguirem continuar a não resolver os problemas do país, irão conseguir continuar a resolver os seus problemas, tanto dos actores secundários como de inúmeras clientelas que se alimentam da sua capacidade para serem incapazes de resolver os problemas do país.
Num verdadeiro estado de direito e com um forte suporte moral, a esmagadora maioria dos políticos portugueses deveria ser proibida de exercer a sua actividade. E muitos deles serem presos por crime de lesa-pátria. Portugal pode ser um país de risco em termos sísmicos e em relação a isso nada se pode fazer. Já em relação aos sismos sociais e económicos que nos atingem há séculos, quem os poderia resolver é precisamente quem se esforça por não os resolver. É assim mais ou menos como contratar um pedófilo para proteger as crianças num campo de férias.