07 novembro, 2014

PAPAGAIOS


Larry Siedentop, professor de Filosofia Política em Oxford, num livro chamado "Democracy in Europe", afirma que, ainda há meio-século, a palavra democracia era desconhecida de quase todo o mundo não-ocidental. E que mesmo no ocidente, há 200 anos, era uma palavra com fortes conotações negativas, com um estatuto não muito diferente do obscuro id freudiano.
Num dos capítulos do livro, The Dilemma of Modern Democracy, distingue uma democracia mais pública, onde as pessoas assumem mais o papel de cidadãs, e uma democracia na qual o indivíduo assume mais o seu espaço doméstico e pessoal. E ilustra a ideia, comparando o O Juramento dos Horácios, de Jacques-Louis David com a pintura de género holandesa.
No primeiro, vamos encontrar um mundo completamente concentrado no espaço público, o espaço da cidadania no qual está ausente uma vivência doméstica. Aliás, todo o dramatismo da cena é publicamente assumido e vivido. Já na pintura holandesa, (neste caso, por mim escolhido, Casal com Papagaio, de De Hooch), deparamos com todo o esplendor da vida doméstica, da cumplicidade doméstica, da intimidade doméstica, da privacidade doméstica. Uma vivência toda ela virada para dentro, introspectiva, ao contrário da anterior, virada para o exterior e com uma visibilidade da qual está ausente qualquer penumbra e segredo.
Diz Siedentop que a democracia moderna tem de encontrar o equilíbrio entre estes dois tipos de pinturas. Concordo. E acrescento a ideia de que as actuais sociedades democráticas têm dado, e de diferentes maneiras, sinais preocupantes de ausência de serenidade, silêncio, intimidade, tempo e liberdade que tanto nos fascinam na doméstica privacidade dos quadros holandeses. O papagaio que vemos neste quadro de De Hooch, fechado numa gaiola na intimidade do espaço doméstico, surge muitas vezes metamorfoseado nos cidadãos que fazem do espaço público a sua casa, onde, com inestético alarido, fazem questão de papaguear as suas insignificâncias.