27 novembro, 2014

O PERFUME DE CARY GRANT


Há anos que não uso perfumes nem ando a ponderar voltar a usar. Mas, há dias, perdi algum tempo num grande espaço comercial em busca de um dado perfume só para o cheirar. Não estando a conseguir encontrá-lo, perguntei a uma menina. Não sabia, indo então perguntar a uma outra que, também não sabendo, me levou a um senhor engravatado e com ar de chefe que, muito solicitamente, atravessou toda a enorme superfície para me levar até ao lado oposto onde, finalmente, chegou o momento de pulverizar o meu pulso para o poder cheirar.
Convém agora explicar o que me levou até ali. Há já bastante tempo, li numa revista um artigo sobre os perfumes usados por vários actores de cinema. Actores vivos mas com uma excepção: Cary Grant. Convém também explicar que não sou dado a idolatrias, não sinto um fascínio especial por Cary Grant e não sou homossexual, o que  exclui a possibilidade de um qualquer desvario fetichista com o seu perfume. Mas não deixei de ficar surpreendido comigo mesmo: pela minha vontade de cheirar o perfume mal leio o artigo na revista, pelo facto de continuar a lembrar-me do nome do perfume tanto tempo depois, por percorrer todo um piso e fazendo perguntas só para poder encontrá-lo e cheirá-lo. 
Porquê, perguntei eu a mim mesmo. A razão é de natureza religiosa: o desejo de religar fisicamente dois mundos distintos. O meu mundo, com as suas categorias espaciais, temporais e sociais e o mundo do cinema clássico, um mundo há muito morto. E duplamente morto. Morto, o mundo representado por esse cinema, mas também morto o cinema que representava esse mundo. A minha religação não se confunde com uma curiosidade idolátrica relativamente ao mundo do cinema em abstracto. Se passar por um perfume que sei ser usado por Jeremy Irons ou Juliete Binoche, não tenho curiosidade em cheirá-lo.
A minha experiência foi a experiência sensível de um cheiro que não é do cinema em si mesmo, mas de um actor cuja vida e cujos filmes fazem parte de uma outra ordem de realidade que transcende a minha realidade. A minha experiência do perfume de Cary Grant representa tornar mais físico e sensível um mundo que, pela ordem natural das coisas, se tornou sobrenatural. Uma sobrenaturalidade que nada tem que ver com a intrínseca virtualidade do cinema. Tanto um filme presente como um filme antigo são realidades ilusórias, virtuais, mágicas. Um filme clássico, porém, seja um filme de Hitchcock de 1946, seja um de Cuckor de 1940, tal como os mundos neles representados, passaram a fazer parte de uma ordem transcendente e da qual estamos irremediavelmente ausentes.
Agora, porquê esta minha inesperada reacção com um perfume? Porque o olfacto é um sentido muito mais físico do que a visão ou a audição, os dois sentidos dos quais mais dependemos no nosso dia-a-dia. Podemos ver centenas de filmes antigos com os respectivos sons, podemos ver centenas de fotos antigas. Claro que a imagem e o som serão sempre uma porta aberta para o passado. Mas enquanto a visão é o sentido teórico por excelência, o olfacto é um sentido que nos envolve fisicamente com o objecto, não apenas exteriormente, mas internamente.
Daí eu poder falar desta experiência como uma hierofania, a manifestação de uma ordem sagrada (estatuto que o mundo clássico, por inerência, adquire) numa ordem profana da qual eu faço parte. Cheirar o perfume de Cary Grant é tocar internamente o mundo de Cary Grant, os filmes onde representou, as mulheres com quem casou ou contracenou, as festas onde se divertiu, os restaurantes onde comeu ou os hotéis onde dormiu, por onde deixou o seu rasto olfactivo que desta vez chegou até àquela superfície comercial para acabar no meu nariz. Um mundo submerso nas águas do tempo mas miraculosamente ressuscitado no aroma forte de umas gotas de perfume.