17 novembro, 2014

O HOMEM É O ÚNICO MAMÍFERO QUE


Cada pessoa tem os seus caprichos e eu, sendo uma pessoa e não uma rã ou um berbequim eléctrico, também não me livro dos meus. Um deles é um choque diário de realidade: a minha oração da manhã que consiste em bisbilhotar as capas dos jornais enquanto tomo o pequeno-almoço.
Hoje, na primeira página do Correio da Manhã, somos informados de que «Euromilionária esconde prémio nos seios». A notícia não tem nada de impressionante uma vez que faz parte do nosso imaginário cinematográfico de filmes de espionagem, conceber essa parceria público-privada do corpo feminino como esconderijo. O que me deixou perplexo foi ler isto depois de na sexta-feira me ter acontecido o que passo a contar durante uma aula de Filosofia.
Estava eu a explicar já não sei bem o quê, quando digo qualquer coisa do género «O Homem é o único ser que...». Entretanto, deu-me para ter um dos meus dramaticamente habituais momentos de parvoíce. Desta vez, um momento Bloco de Esquerda. Interrompi o que ia dizer, defendendo que não era justo para as mulheres dizer o "Homem". Pensei um bocadinho e disse então que iria passar a dizer "ser humano" em vez de "Homem". Mas mal o disse, vi que não adiantava nada, uma vez que "humano" remete para "homini". Pedi então sugestões ao público presente para resolver a minha angústia conceptual. Uma aluna da primeira carteira sugeriu-me então que passasse a dizer "mamífero". Ouço-a mas de de imediato percebo que também não dá, e começo a explicar que neste caso são os homens que ficam prejudicados, pois mamífero tem que ver com... tem que ver com...com...(tosse nervosa)...com... fazendo então com os braços, ainda meio engasgado e com o rosto a arder, um gesto circular no meu peito.
Claro que acharam imensa graça à minha triste figura mas eu não me livrei de um enorme embaraço. Um embaraço que faz e não faz sentido. Recorramos à Wikipédia para explicar a complexidade de tão delicado assunto. Explica o artigo que «as mamas são conhecidas popularmente também como seios ou peitos nos humanos». Uma pessoa lê isto e fica baralhada. Para o senso comum é exactamente o contrário: as mamas é que parecem ser uma versão popular de seios ou peitos. Uma pessoa educada diz "seios" ou "peito", não diz "mamas". Dizer "mamas" soa a lasciva brejeirice. Numa empresa, um colega não diz a outro «Eh pá, já reparaste nos seios da Sónia?». Nem o segundo responde que sacrificava uma vitória do Benfica só para poder «adejar aquele peito». A Sónia lá da empresa não tem seios nem peito, tem um par de mamas. Tem seios ou peito, sim, quando abordada com deferência e obséquio.
Mas depois ouvimos falar em cancro da mama. os cirurgiões plásticos falam em fortalecimento das mamas. Em problemas mamários. Ou seja, vai para aqui uma grande confusão epistémica. Um grave problema de ruptura epistemológica muito mal resolvido entre dois registos mentais estruturalmente diferentes: o científico e erudito, e o popular. "Mamas" tem um sentido científico, é em mamas que pensam e verbalizam os médicos e cientistas. Mas entretanto imagino o impacto de estar numa sala de aula e falar em mamas. Ou de dizer a uma das minhas tias velhinhas que gosto mais das mamas da Kim Novak do que das mamas da Gina Lollobrigida. Claro que é no peito da Kim Novak que irei falar.
Mas se eu disser numa aula que não é justo arrumar homens e mulheres no conceito de "mamífero" pois apenas as mulheres têm seios, arrisco-me a fazer figura de senhor Palomar na praia. Por que raio digo hei-de dizer "seios" para me referir às "mamas" de "mamífero"? Parece-me estúpido dizer que o "Homem é um mamífero com seios". Neste caso, por todos os sentidos e mais algum. A aula é um espaço formal, de técnica e de conhecimento, como um consultório médico ou uma livraria onde se vendem livros sobre o cancro da mama. Ora, dizer seios em vez de mamas revela a minha necessidade de desnaturalizar essa parte do corpo feminino, denunciando, por via do pudor, o seu impacto erótico na minha consciência. Quer dizer, é pior a emenda do que o soneto.
O ideal seria eu dizer mamas sem ficar vermelho e sem ter à minha frente uma turma com risinhos parvos e a pensar que o professor de filosofia vai para as aulas falar de mamas. Mas a realidade está longe de tornar isso possível. Agora, o que é verdadeiramente interessante aqui é pensar na promiscuidade epistémica que referi há pouco. O que significa ela? Nada melhor do que o livro do Génesis para a explicar, graças à árvore do conhecimento do bem e do mal. Nesta árvore encontram-se reunidas duas dimensões: o conhecimento e a moral. A partir do momento em que dela se comeu, criou-se uma situação complexa. O homem (digamos assim) conquistou o conhecimento mas com este descobriu moralmente o corpo. Antes da queda, não havia conhecimento nem moral, depois da queda surgiram as duas. Claro que o ideal seria haver conhecimento sem moral. Mas isso significaria almoços grátis, coisa bem complicada, como sabemos. Instalou-se depois a confusão e, no caso português, reflectida babelicamente. O médico conhece e fala da mamas que conhece. Mas o homem comum não encara as mamas como objecto de conhecimento mas de desejo, ou seja, moralmente condicionado, sendo esse condicionamento tal que acaba também por manchar a neutra e impessoal relação científica com o objecto.
Ganhar um registo sem perder o outro não é coisa fácil e estamos condenados a viver nesta ambiguidade. Mas ainda bem, digo eu. As mamas do consultório médico não têm gracinha nenhuma e eu, felizmente, não sou médico, sou um professor de filosofia que também comeu a sua maçãzinha na árvore do conhecimento do bem e do mal.